segunda-feira, 7 de setembro de 2020
A DIRECÇÃO GERAL DE SAÚDE, OS CRÍTICOS E A FESTA DO AVANTE
Uma coisa é certa : os anos que tenho para viver são muito menos do que aqueles que já vivi.
Mas existem coisas que gostaria de fazer e que a pandemia veio adiar, ainda não sei para quando. Por isso ouço e leio com muito interesse as notícias que vão surgindo sobre a evolução da doença, os novos conhecimentos que vão surgindo, as vacinas e os tratamentos em investigação - sempre na esperança de ficar a saber que os perigos da pandemia vão ser afastados. Uma das minhas fontes informativas, desde o principio, assistindo em directo ou em diferido, são as conferências de imprensa do Ministério da Saúde / Direcção Geral de Saúde (DGS ), onde é feito o ponto da situação diária e são dadas respostas às questões postas pelos jornalistas. Tive, e tenho, sempre a noção de que as informações e as respostas eram, são, dadas com toda a honestidade e vontade de esclarecer as pessoas e nunca notei qualquer desejo de evitar um assunto ou tentativa de ocultação de factos. Tive sempre a sensação de estar perante pessoas de confiança. Uma ou outra vez as orientações expressas foram alteradas, mas considero que isso é sinal de inteligência – na medida em que inteligência á a capacidade de se enfrentar situações novas, um atributo dos humanos.
A maneira como deve ser enfrentada a pandemia e os cuidados a ter diferem, quer nas decisões das autoridades dum país ( variando entre posições extremas como a Suécia e a China ) quer nas opiniões de especialistas, de pessoas que emitem opiniões na comunicação social ou simplesmente de populares. A mim, opinião de popular, parece-me que as directivas emanadas pela DGS são sensatas, baseadas nos conhecimentos científicos disponíveis, não variando conforme diga respeito à situação ou ao acontecimento A, B ou C e procurando manter o equilíbrio possível entre a precaução e a necessidade de continuarmos as actividades sociais, profissionais e lúdicas.
Em resultado da diferença de opiniões acima falada, a DGS tem sido atacada, por vezes de forma civilizada, no campo das ideias, por vezes de forma sectariamente violenta e injusta ( *), por vezes por fazer de mais, por vezes por fazer de menos. E o Governo, na sua obrigação de promover o bem comum, toma as suas decisões em conformidade com as informações técnicas que lhe são fornecidas, transformando-as em decisões políticas com força de lei. Há quem não goste e barafuste, nada de anormal : é o sistema democrático a funcionar. Mas a legislação é para ser cumprida, não pode ficar ao livre arbítrio de cada um fazer o que apetece, quando não concorda.
O caso da festa do Avante é um caso típico de mistura de preocupações de saúde publica com luta política. Os adversários políticos do PCP estiveram visceralmente contra a realização festa, alegadamente por razões sanitárias, mas na realidade porque são contra o PCP e para DAevitar uma acção de propaganda política em grande escala, chegando a insinuar que o Governo nã proibiu a festa para tentar conquistar o PCP relativamente à aprovação do orçamento para 2021 ( omo se o PCO se deixasse convencer por esse processo ). Fizeram de conta que ignoravam que, fora do estado de emergência, não é possível a um Governo proibir manifestações politicas. Mas, muitas pessoas genuinamente preocupadas com o controlo da pandemia, também pensaram que o Governo deveria proibir a festa por motivos de saúde pública, para evitar contágios, mesmo que a organização prometesse cumprir as determinações da DGS. De facto, mesmo cumprindo à risca todas as regras, não haveria risco zero, como não há risco zero nos transportes públicos, nos empregos, nos espectáculos autorizados, nas reuniões familiares, na feira do livro, etc. e como não vai haver no regresso às aulas.
Devemos ser prudentes e seguir as orientações da DGS, mas não podemos deixar de viver a nossa vida de relação.
Tanto quanto me apercebi, a DGS para a festa do Avante não atenuou nem inventou regras : sistematizou para a diversas actividades que iam decorrer o que já estava estabelecido para restaurantes, bares, espectáculos ao ar livre, comícios, etc. E a determinação do número máximo de pessoas obedeceu ao mesmo critério que a lotação das praias.
Não me parece que tenha havido incoerências.
Mas dito isto, também têm razão aqueles que perguntam:
Desde o início da pandemia tanta gente abdicou de tanta coisa, na Páscoa emigrantes não vieram ver as famílias, os outros partidos políticos têm feita a reentrada sem festas populares, continuamos a não fazer tudo o que gostaríamos, porque razão o PCP não se mostrou solidário reduzindo a festa tradicional à parte política?
(+ ) Um caso típico é o que o Sr. Director do semanário Expresso disse no artigo que publicou na página 2 do número de 5/9/2020
Lisboa, 6 de Setembro de 2020
quinta-feira, 9 de julho de 2020
A NACIONALIZAÇÃO DA EFACEC
No seu campo de actividade, a engenharia electrotécnica, a EFACEC é uma empresa de prestígio mundial, com conhecimentos técnicos ( know how ) próprios, companhias na Europa, nas Américas e na Ásia, que vence concursos internacionais e exporta produtos de alto valor acrescentado.
É portanto uma empresa cujo desaparecimento depauperaria o já de si não muito rico, tecido industrial português e privaria o país dum exportador de qualidade.
Portanto, fez muito bem o Governo em deitar mão à empresa, nacionalizando-a, garantindo a sua sobrevivência financeira e preparando-a para ser vendida quando aparecer um comprador conveniente.
Um “comprador conveniente”. A escolha do adquirente não me parece uma tarefa simples, nem pode ser baseada unicamente no “quem dá mais”. Em meu entender, deverá ser uma firma com interesses indiscutíveis na industria, de sólida base financeira, de preferência de capitais nacionais e que ofereça garantias de não vá “parti-la aos bocados” e vender estes de forma a obter um lucro fácil. Aceitar como comprador uma companhia financeira, um fundo investimentos por exemplo, é um risco grande pois estas entidades não têm verdadeiramente gosto pela indústria, pela agricultura, pelos serviços, etc,: só têm gosto pelo dinheiro em si. Quando vêm possibilidade de fazer um bom negócio, depois de terem extraírem tudo o que puderam, vendem, sem lhes interessar o futuro da empresa.
O Governo deve acautelar este risco e não pode ter pressa em vender pois, como disse acima, a EFACEC é uma empresa valiosa cuja continuidade interessa garantir.
Lisboa, 9 de Julho de 2020
quarta-feira, 17 de junho de 2020
A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL DE 2009 E O SEU REFLEXO EM PORTUGAL :
PARTE II – CONSEQUÊNCIAS
Como deixei escrito no final da PARTE I, os resultados para a população portuguesa do programa da troika, executado pelo Governo PSD+CDS, serão resumidos nesta PARTE II do artigo, a partir do excelente estudo “ DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS E POBREZA EM PORTUGAL – As consequências sociais do programa de ajustamento “ , da autoria de Carlos Farinha Rodrigue et al. , do Instituto Superior de Economia e Gestão, edição de 2016 da PORDATA, daqui em diante referido simplesmente como ESTUDO.
1. A redução dos rendimentos
Observando o Quadro 1, pág.26 do ESTUDO que apresenta as perdas de rendimento dos vários decis hda população entre 2009 e 2014 , vê-se que os rendimentos familiares equivalente das famílias mais pobres sofreram muito mais que os das famílias mais ricas no período 2009-2014 : enquanto os dois primeiros decis tiveram uma redução, respectivamente de 25% e 16% , para o último a redução foi de 13%, sendo a redução média considerando todos os decis de 12 %
( Nota : O 1º decil diz respeito aos 10% da população com rendimentos mais baixos, o 2ª decil aos 10 % da população com rendimentos a seguir aos mais baixos e assim sucessivamente até ao 10º decil onde estão os 10% da população com os rendimentos mais altos )
No que respeita aos outros países sujeitos ao ajustamento em comparação com a média da União Europeia no Gráfico 5 ( pág. 31 da mesma fonte ), vê-se que em resultado da crise os países sujeitos ao torniquete da troika, particularmente a Grécia, viram os rendimentos familiares diminuírem, enquanto que na União Europeia a 28, ou a 17 subiram.
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
i) Devido às políticas implementadas durante o tempo da toika, em média toda a população sofreu cortes no seu rendimento, mas os mais pobres francamente mais que os mais ricos.
ii) Na EU, os países que tiveram necessidade de auxílio perderam rendimentos, enquanto que os restantes países ganharam rendimentos
2. Aumento das desigualdades
A evolução da desigualdade é medida pela variação ao longo dos anos de indicadores como o Índice de Gini, os Índices de Atkinson e a relações entre os rendimentos médios dos decis mais elevados e os dos mais baixos
No ESTUDO, os números apresentados mostram que, se as desigualdades económicas diminuíram de 2006 a 2009, no intervalo de 2009 a 2014 aumentaram ( Quadro 4 da pág. 38 )
A relação entre o rendimentos médios do decil mais rico ( S90 ) e o decil mais pobre ( S10 ) passou de 9,2 em 2009 e para 10,6 em 2014 . E se for considerada a relação entre os rendimentos médios dos 5% mais ricos e os dos 5% mais pobres ( S95/S5 ) o aumento foi de 14,3 em 2009 pata 18,4 em 2014.
A comparação entre o que se passou em Portugal e na União Europeia pode ver-se no Gráfico 12, 13, 14 e 15 das pág. 42 e 43 do ESTUDO através da variação do coeficiente de Gini
( Relembrando que o índice de Gini varia entre 0 (igualdade total ) e 1 ( máxima desigualdade ) e portanto quanto maior for o índice, mais desigual é a sociedade)
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
i) As políticas seguidas tornaram a população de Portugal mais desigual em termos de rendimentos
ii) No contexto europeu, Portugal manteve-se como um dos países mais desiguais
3. Agravamento da pobreza monetária
A taxa de pobreza monetária é definida como a percentagem da população que usufrui menos que 60% do rendimento mediano por adulto equivalente, valor que constitui a linha de pobreza oficial Esta taxa, porem não dá uma medida realista da medição de pobreza ao longo dum período porque, devido a variações do valor da mediana causada por descidas dos rendimentos o valor da mediana pode descer e fazer sair pessoas da zona de pobreza sem que efectivamente tenham saído. Por isso foi criada a noção de “linha de pobreza ancorada num determinado ano” calculada a partir do ano de referência usando o índice de preços no consumidor para o actualizar
O Gráfico 21 da pág.52 do ESTUDO mostra como aumentou a taxa de pobreza em Portugal de 2009 a 2014 : a pobreza oficial aumentou de 17,9% para 19,5% e a pobreza ancorada ou referida a 2009 aumentou de 17,9% para 24,2 %.
O gráfico 23 da pág. 55 do ESTUDO mostra como taxa de pobreza nos países sujeitos ao ajustamento aumentou mais que na média da UE28 e da Zona Euro.
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
A crise de 2009 aumentou a taxa de pobreza em Portugal e na maior parte dos países da UE
4) Quantos eram os pobres em Portugal
Como vem escrito na pág. 85 do estudo, utilizando o conceito de linha de pobreza oficial, os pobres aumentaram em mais de 116.000 pessoas de 2009 para 2014, passando de 1,903 milhões em 2009 para 2,019 milhões em 2014, dos quais 22,2 % eram menores de 17 anos e 17,8 % idosos
5) Aumento da privação material
Relembremos as noções de privação material ( PM )e privação material severa (PMS) .
Diz-se que uma família ou um indivíduo está em PM se, por motivos financeiros, não com seguir satisfazer 3 destas nove condições :
- ter as contas em dia ( não ter atrasos no pagamento de rendas, despesas etc. ):
- gozar uma semana de férias fora de casa;
- fazer uma refeição de carne, peixe ou equivalente vegetariano pelo menos dia sim, dia não:
- conseguir fazer face a uma despesa imprevista sem pedir um empréstimo;
- ter telefone
- ter televisão a cores ;
- ter uma máquina de lavar roupa;
- ter automóvel ;
- manter a casa aquecida no inverno
A PMS verifica-se quando não é possível satisfazer 4 destas condições.
Em Portugal, entre 2009 e 2017 ( Quadro 11, pág 60 do ESTUDO )
A PM aumentou de 21,5 % para 25,7 % e
A PMS aumentou de 9,1 % para 10,6 %
Um outro indicador que permite a avaliar o que se passou nos capítulos da pobreza e da privação material é o da pobreza consistente. . Um pobre consistente é uma pessoa que está simultaneamente em situação de pobreza e de privação material. Este indicador passou de 8,2% da população para 9,7 % em 2014.
Comparando com o que se passou na UE a 27 ( UE sem croácia ), observa-se no Gráfico 29 da pág. 63 do ESTUDO que entre 2009 e 2014 a PMS diminuiu em 10 países, permaneceu constante em 2 e aumentou em 15. Em Portugal subiu 1,5% enquanto na média da EU a 27 cresceu 0,7 %
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
A crise de 2009 aumentou a taxa de privação material em Portugal e na maior parte dos países da EU
6) Perda de rendimentos salariais
A análise feita no Capítulo 7 do ESTUDO mostra que o ganho médio equivalente mensal dos trabalhadores diminuiu de cerca de 6% entre 2009 e 2014 em termos brutos e cerca de 12,7% em termos líquidos.
Considerando os decis daquele ganho médio bruto, verifica-se que os mais penalizados são o 1º , que passou de 515 € para 449 € ( - 14,7% ) e o 10ª que reduziu de 4116 € para 3670 € (- 10,8 % ).
E também se verificou que os trabalhadores por conta de outrem com baixos salários ( definem-se baixos salários como salários abaixo de 2/3 da mediana ) passaram de 14,0 % em 2009 para 15,4% e que a respectiva taxa de pobreza aumentou de 6,1% para 8,0%
Ou seja, os trabalhadores de mais fracos rendimentos perderam mais que os outros e a correspondente taxa de pobreza aumentou
7) Como se distribuíram as perdas pelos diferentes grupos de trabalhadores
O ESTUDO mostra que :
- Os trabalhadores mais jovens ( < ou= 24 anos ) perderam mais que os outros grupos etários
- O género feminino perdeu mais que o masculino
- Os contratados a prazo perderam mais que os permanentes
- Os trabalhadores a tempo parcial perderam mais que os a tempo integral
- Os trabalhadores com cursos superiores, em percentagem, perderam quase o dobro em comparaçãocom os dos outros graus
de ensino
- Por sectores de actividade, os trabalhadores da indústria melhoraram enquanto os de todas as outras actividades
pioraram.
8) Efeitos das alterações efectuadas nas transferências sociais
Entre 2009 e 2014, verificaram-se alterações nas transferências sociais relativas a abono de família (AdF),
rendimento social de inserção (RSI) e complemento solidário pata idosos (CSI)
8.1 ) AdF
Em 2010, o AdF foi eliminado para as famílias de maiores rendimentos ( 4º e 5º escalões ), bem como a majoração de 25% para o 1º escalão ( famílias de rendimento anual até 2.934,54 € e para o 2º escalão de rendimento anual de 2.934,54 € a 5.869,08 € ). Isto contribuiu certamente para aumentar a pobreza naqueles escalões.
8.2) RSI
Como se pode ler na página 134 do ESTUDO, 2 reformas na atribuição do RSI, em 2010 e 2012 reduziram não só o montante a receber por cada beneficiário (foram eliminados alguns benefícios adicionais), como reduziram o número de pessoas elegíveis .No entanto o valor máximo que um indivíduo que viva só foi mantido foi mantido até 2013, quando foi reduzido de 189,52 €/mês para 178,15 €/mês. Isto significou que o número de beneficiários passou de 486.977 em 2009 para 320.811
em 2014 e número de famílias abrangidas foi reduzido de 192.249 em 2009 para 139.557 ( em 2014).
Em período de crise, foi um grande contributo para o aumento da pobreza
8.3) CSI
O CSI foi criado em 2005 e é igual à diferença entre os recursos do idoso e um valor de referência .
Em 2009 aquele era de 5.022 €/ano e foi reduzido em 2013 para 4.909 €/ano .
O número de beneficiários subiu de 232.808 em 2009 para 237.845 em 2013 e caiu para 212.565 em 2014 ( com a respectiva diminuição de despesa ).
CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS DAS POLÍTICAS IMPLEMENTADAS NO TEMPO DA TROIKA
QUE SÃO EVIDENCIADAS PELO ESTUDO
1) Em média toda a população sofreu cortes no seu rendimento, mas foi bastante pior nos mais pobres que nos mais ricos.
2) As políticas seguidas tornaram a população de Portugal mais desigual em termos de rendimentos.
3) A taxa de pobreza em Portugal aumentou, ou seja os pobres aumentaram em mais de 116.000 pessoas de 2009 para 2014, passando de 1,903 milhões em 2009 para 2,019 milhões em 2014, dos quais 22,2 % eram menores de 17 anos e 17,8 % idosos
4) Aumentou a taxa de privação material em Portugal
5) Os trabalhadores de mais fracos rendimentos, em percentagem, perderam mais que os outros.
6) A população mais necessitada foi prejudicada pela redução das contribuições sociais relativas a abono de família, rendimento social de inserção e complemento solidário para idosos .
APRECIAÇÃO FINAL
As medidas de redução do défice das contas públicas exigidas pela União Europeia e pelo FMI ( cujos organismos intervenientes constituíram a chamada troika ) para emprestar dinheiro ao Estado Português em consequência da crise financeira internacional de 2009 ( ver 1ª Parte do texto ) estão traduzidas no que foi chamado Memorandum de Entendimento. Aquelas medidas foram postas em prática entre 2011 e 2015 pelo governo de coligação PSD + CDS ( Passos Coelho + Paulo Portas ).
A insensibilidade social ( para não dizer crueldade ) das disposições tiveram as consequências acima descritas, mas acabaram por ser ineficazes em relação aos objectivos pretendidos pela troika.
No Memorandum estavam fixadas metas para os défices das contas públicas em 2011, 2012 e 2013 que não foram atingidos.
Vejamos quais eram os objectivos e os resultados alcançados
ANO DÉFICE PRETENDIDO DÉFICE REAL ( valores tirados da Pordata )
Em MILHÕES de € Em % do PIB Em MILHÕES de € Em % do PIB
2011 10.068 - 5,9 13.495 -7,7
2012 7.645 - 4,5 10.400 -6,2
2013 5.224 - 3,0 8.702 -5,1
EM FACE DISTO, COMO É POSSÍVEL AOS INTERVENIENTES E AOS QUE OS APOARAM ESTAREM SATISFEITOS E POR VEZES ORGULHOSOS DOS RESULTADOS OBTIDOS PELO GOVERNO PSD+CDS ?
sexta-feira, 29 de maio de 2020
A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL DE 2009 E O SEU REFLEXO EM PORTUGAL : CAUSAS , CONSEQUÊNCIAS E IDEIAS ERRADAS PARTE I – CAUSAS e DUAS IDEIAS ERRADAS
A ) Relembrando o que se passou :
Em resultado da falência da banco norte americano Lehman Brothers em 2008 ( crise dos sub-prime desencadeada nos EUA) estabeleceu-se grande confusão e desconfiança nos mercados financeiros e os bancos deixaram de emprestar dinheiro. Sem crédito, a actividade económica paralisou e a economia entrou em recessão. Numa 1º fase, que durou pouco, a União Europeia aconselhou os governos a aumentarem a despesas pública a fim de combater a recessão, mas rapidamente mudou de opinião em 180º passando a aconselhar máxima redução de despesas. Países como Portugal viram as falências de empresa crescerem, o desemprego aumentar e as receitas fiscais diminuírem. Como o Estado, desde há décadas ( ver anexos ) já dependia de empréstimos para satisfazer os seus compromissos, o aumento de desequilíbrio entre receitas e despesas, fez aumentar a necessidade daqueles. E como a desconfiança dos investidores financeiros era grande, como acima ficou dito, estes começaram a pedir juros, exorbitantes, incomportáveis para quem pedia emprestado ( foi a crise das dívidas soberanas)
O Banco Central Europeu não comprou dívida pública dos países necessitados em quantidade suficiente ( como fez mais tarde Mario Draghi e recentemente Christine Lagarde ) e Portugal em desespero de causa, em situação de quase bancarrota, através do Governo de José Sócrates com a concordância dos partidos da direita, teve de recorrer à União Europeia e ao FMI para obter dinheiro mais barato. O empréstimo teve de obedecer às regras dos emprestadores ( a chamada troika ), as quais foram postas em prática pelo governo que se seguiu ao de José Sócrates, a coligação PSD+CDS ( Passos Coelho + Paulo Portas ).
B ) Analisemos agora 2 ideias erradas que na altura tentaram e ainda tentam impingir à generalidade da população :
1) É verdade que a culpa da quase bancarrota do país foi o despesismo do Governo Sócrates e dos governos socialistas em geral ?
NÃO !
Basta olhar para o QUADRO Anexo 1 , onde figuram valores tirados dum comunicado da Agência Lusa de 20/3/2008, e para o QUADRO Anexo 2 , onde se reproduzem dados tirados da PORDATA sobre défice e dívida a partir de 1995 para se observar que todos os governos pós Revolução de 25 de Abril de 1974 apresentaram défices nas contas publicas e contraíram empréstimos e que OS DÉFICES MAIS BAIXOS SE VERIFICARAM COM GOVERNOS SOCIALISTAS.
Quanto ao défice de 9,9 % do PIB que ocorreu em 2009 com o Governo de José Sócrates, ele foi resultante das consequências da crise financeira internacional acima descritas. De facto o Governo Sócrates podia ter gasto menos dinheiro, se tivesse deixado de pagar subsídios de desemprego, rendimentos sociais de inserção, complementos sociais par idosos e outras prestações sociais. Mas essa solução teria sido a correcta ? Não me parece, nem a ninguém com um mínimo de sentimentos de solidariedade social. Para melhor compreensão, ver o QUADRO Anexo 3 que compara as Contas da Administração Pública de 2008 com 2009 e reparar onde houve aumento de despesa e diminuição de receita
No ano de 2010, houve 2 governos, inicialmente de José Sócrates e depois de Passos Coelho. Pelas razões anteriormente avançadas o défice foi de 11,4 % do PIB. Ver Quadro Anexo 4.
Confirma-se portanto que os governos do Partido Socialista não foram despesistas.
2) ´E verdade que o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas salvou o País ?
Não !
Como vimos, o problema do País, resultante da crise financeira internacional, foi o de não conseguir obter empréstimos a juros razoáveis. Ora este objectivo não foi conseguido pelo Governo PSD+CDS, foi resultado dum pedido de auxílio à União Europeia feito Governo de José Sócrates, aprovado por aquela, com a imposição de condições económicas prejudiciais para Portugal ( como a privatização de empresas públicas rentáveis ).
O Governo Passos Coelho e Paulo Portas foi apenas o executante dum guião escrito pela troika, baseado em ideias de economia neo liberal .
Portanto quem salvou o País foram a UE e o FMI.
Mas nunca é demais reafirmar que se o Banco Central Europeu, sob a orientação do Sr. Trichet, tivesse tomado a atitude que mais tarde, sob a direcção do Sr. Mario Draghi, tomou, tudo teria sido diferente.
Os resultados para a população portuguesa da dita “salvação “ serão resumidos na PARTE II deste artigo, a partir do excelente estudo “ DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS E POBREZA EM PORTUGAL – As consequências sociais do programa de ajustamento “ , da autoria de Carlos Farinha Rodrigues et al , do Instituto Superior de Economia e Gestão, edição de 2016 da PORDATA
Lisboa, 29 de Maio de 2020
PORTUGAL - CONTAS PÚBLICAS QUADRO 1
ANO DÉFICE DÍVIDA PÚBLICA Governos
em % PIB em % PIB em M Escud
1974 62.809 Gov Provisório
1975 100.340 Gov Provisório
1976 151.379 Gov M Soares
1977 -2,9 210.549 Gov M Soares
1978 -7,2 292.530 Soares et al
1979 -5,1 253.773 Gov Pinto e MLPintasilgo
1980 -7,2 466.918 Gov Sá Carneiro
1981 -8,7 709.702 Gov Balsemão
1982 -7,2 938.834 Gov Balsemão
1983 -5,1 1.302.540 Balsemão e Bloco Central
1984 -5,5 1.773.625 Bloco Central
1985 -8,6 2.343.372 Bloco Central
1986 -7,5 2.858.292 Gov Cavaco
1987 -5,9 3,768.076 Gov Cavaco
1988 -3,6 4.511.583 Gov Cavaco
1989 -2,9 5.180.194 Gov Cavaco
1990 -6,3 5.671.315 Gov Cavaco
1991 -7,6 6.584.002 Gov Cavaco
1992 -4,7 7.048.897 Gov Cavaco
1993 -8,1 8.225.777 Gov Cavaco
1994 -7,7 9.328.602 Gov Cavaco
1995 -5,5 10.509.910 Gov Guterres
1996 -4,8 11.161.220 Gov.Guterres
1997 -4,0 11.365.911 Gov.Guterres
1998 -3,2 11.677.376 Gov.Guterres
Os valores do défice foram tirados dum comunicado
da Agência Lusa de 20 de Março de 2008
Os valores da dívida foram tirados do livro
PORTUGUESE HISTORICAL STATISTICS , ED. INE
PORTUGAL - CONTAS PÚBLICAS QUADRO 2
ANO DÉFICE DÍVIDA SOBERANA OBS.
m % PIB em % PIB em M de €
1995 -5,2 61,6 54.874,0 Gov Guterres
1996 -4,7 63,1 59.561,0 Gov Guterres
1997 -3,7 58,6 59.928,0 Gov Guterres
1998 -4,4 55,0 61,249,0 Gov Guterres
1999 -3,0 54,8 65.550,0 Gov Guterres
2000 -3,2 54,2 69.592,0 Gov Guterres
2001 -4,8 57,4 77.908,0 Gov Guterres
2002 -3,3 60 85.595,0 Gut e Barroso
2003 -5,7 63,9 93.333,0 Gov Barroso
2004 -6,2 67,1 102.158,0 Barr. e depois Santana Lopes
2005 -6,1 72,2 114.553,0 S.L. e depois Sócrates
2006 -4,2 73,7 122.500,0 Gov Sócrates
2007 -2,9 72,7 127.626,0 Gov Sócrates
2008 -3,7 75,6 135.478,0 Gov Sócrates
2009 -9,9 87,8 154.014,0 Gov Sócrates
2010 -11,4 100,2 179.966,0 Gov Socr. e depois Passos
2011 -7,7 114,2 201.459,0 Gov Passos
2012 -6,2 129,0 217.160,0 Gov Passos
2013 -5,1 131,4 224.078,0 Gov Passos
2014 -7,4 132,9 230.059,0 Gov Passos
2015 -4,4 131,2 235.746,1 Gov Passos
2016 -1,9 131,5 245.244,8 Gov A Costa
2017 -3,0 126,1 247.173,7 Gov A Costa
2018 -0,4 122,0 249.260,8 Gov A Costa
2019 0 117,7 249.980,3 Gov A Costa
NÚMEROS TIRADOS DA PORDATA
QUADRO ANEXO 3
CONTAS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DE 2008 e 2009
QUADRO ANEXO 4
CONTAS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DE 2010
sábado, 4 de janeiro de 2020
SOBRE O SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE NO FINAL DE 2019
Continua a falar-se muito do SNS.
Até o Sr. Presidente da República, na sua mensagem de Ano Novo para 2020 a isso fez referência
É natural, pois a par da escolaridade obrigatória e gratuita para todos até ao 12º ano, é uma joia de valor incalculável criada pelo regime democrático resultante da Revolução de 25 de Abril de 1974.
É estranho, mas muito raramente aparecem louvores ao SNS : o que se ouve e se lê são críticas ao seu funcionamento neste ou naquele local, à falta de profissionais de saúde, ao envelhecimento dos equipamentos, ao encerramento temporário de algumas unidades, aos tempos de espera para consultas e cirurgias, a dívidas dos hospitais públicos, à existência de taxas moderadoras e também muitas críticas à falta de verbas ( sobretudo para aumentar vencimentos dos profissionais envolvidos ).
Sobre a falta de verbas falarei mais adiante, mas antes disso vou fazer as seguintes considerações :
As críticas, em meu entender, têm dois objectivos, aliás antagónicos : chamar a atenção para que é necessário melhorar o funcionamento do SNS e/ou desacreditar o SNS para levar as pessoas a fazerem o sacrifício de contratar seguros de saúde.
Porem, quanto custará a mensalidade dum seguro de saúde que conceda os benefícios que o SNS concede a cada português , e sem limite de despesa ?
Quanto custará ?
Respondam, por favor, senhores críticos !
( Devo dizer que a prática comercial de denegrir os produtos da concorrência em vez de salientar as qualidades dos produtos próprios não se vê em mais nenhum ramo de actividade, excepto na política ).
E , já agora, pergunto a quem sabe muito sobre cuidados de saúde e opina nos jornais, nas TVs e através da net, quais são os países da OCDE em que aqueles cuidados são mais -abrangentes dos que os do nosso SMS e também os que na prática funcionam melhor que o nosso ( menos tempos de espera para consultas, cirurgias e exames, menos insucessos fatais por mil habitantes, etc. ). Como são frequentes as referências ao que sucede nos países que queremos emular, esta comparação sem dúvida que se justifica
As causas das dificuldades que o SNS atravessa desde 2010 para cá ( embora durante os governos anteriores aos do Sr. António Costa não merecessem tão assiduamente a atenção da comunicação social ) são conhecidas : aumento da esperança média de vida das pessoas sem concomitante aumento da resistência à doença e aos achaques da velhice; crença das pessoas de que vale sempre a pena ir ao médico pois os progressos da medicina são constantes, o que , conjuntamente com a fácil acessibilidade aos cuidados de saúde, faz afluir mais utentes aos serviços ; aumento dos custo dos medicamentes devido à introdução de novos e dispendiosos fármacos - circunstâncias estas que não foram acompanhadas do necessário aumento do financiamento público.
E não foram acompanhadas de suficiente aumento de despesa pública porque a seguir à crise financeira internacional que começou nos EUA em 2008 e se propagou para a Europa a economia portuguesa entrou em declínio e as despesas públicas, sob a batuta da troika ( 2011-2014 ) e execução do governo do PSD+CDS, entraram em contracção.
É sabido que após uma crise económica, onde as queda são rápidas, a recuperação a níveis anteriores é lenta.
Em geral demora anos, com veremos
Os gráficos e tabelas, tirados da PORDATA que a seguir se exibem são bem explicativos.
No gráfico relativamente à despesa das administrações públicas com a Saúde, vê-se o seguinte :
1. Crescimento a um ritmo mais ou menos constante de 2000 a 2009
2. Abrandamento do ritmo de crescimento de 2009 para 2010
3. Queda muita acentuada de 2010 para 2012.
4. Estabilização entre 2012 e 2014
5. Re-início do crescimento em 2014 que se mantem até 2018 (últimos ano do gráfico ) e que, com se sabe, continuou em 2019.
( Convém não esquecer que todas estas despesas com o SNS foram feitas num contexto de défice nas contas públicas e de aumento da dívida soberana )
Imaginando que não tivesse havido crise económica nem intervenção da troika e que o ritmo de crescimento da despesa das administrações públicas com a Saúde se tivesse mantido ao rimo de 2000-2009, em 2018 aquela teria atingido o valor de 15.200 milhões de euros e não apenas cerca 12.200 como está previsto. Ou dito de outra maneira, a despesa em 2018 teria sido superior em 25% ao que foi !!! E muitas das dificuldades não se teriam manifestado.
-Ah! - exclamarão alguns – isso não foi feito porque não houve vontade política de o fazer ! Não quiseram saber do SNS !
Antes de dar a minha opinião sobre esse tipo de comentários, vejamos o que passou com o PIB , indicador que mede a riqueza gerada num país, a partir do quadro tirado da PORDATA , como se disse
i) Antes da crise iniciada em 2008, o ponto mais alto do PIB foi atingido em 2008 com 193,450 milhões de euros
ii) Iniciou-se então uma queda cujo valor mais baixo foi atingido em 2013 com 178. 169 milhões de euros
iii) De 2013 em diante, o PIB voltou a subir tendo finalmente em 2018 sido ultrapassado o máximo anterior de 2008, ou seja
FORAM NECESSÁRIOS 10 ANOS PARA SE VOLTAR A VALORES ANTERIORES À CRISE.
Voltando ao caso de haver ou não haver vontade política de gastar mais dinheiro com o SNS , não podemos deixar de considerar o seguinte :
a) A dívida pública portuguesa é muito, muito elevada e portanto não é do interesse de Portugal continuar a aumentá-la indefinidamente. Há juros a pagar e há que mostrar às instituições europeias que nos ajudam a ter juros baixos que somos um País honrado que quer pagar as suas dívidas e portanto um Estado de confiança
b) Para conseguir esse objectivo é necessário que o défice das contas vá diminuindo e tenda para zero.
c) O funcionamento de todos os serviços públicos, os rendimentos das pessoas ( ordenados dos funcionários públicos e pensões dos reformados ) e as prestações sociais foram muito prejudicados pela contracção de despesas imposta pela troika e executada pelo governo de então ( PSD+CDS ).
d) Não seria justo que todo o dinheiro disponível resultante da melhoria das condições económicas pós-troika fosse canalizado para o SNS. Todos os prejudicados pelas políticas anteriores também tinham direito à reversão.
Neste contexto, seria benéfico recorrer aos serviços privados de saúde resolver problemas ? Não me parece, pois não creio que os cuidados prestados pelos privados sejam mais baratos que o custo de iguais cuidados prestados nas unidades do SNS. E como vimos acima, as verbas destinadas à Saúde são as possíveis, considerando todas as circunstâncias.
Também não devemos esquecer dois detalhes importantes : no tempo da troika + governo PSD e CDS, o tempo de trabalho dos profissionais de saúde foi aumentado de 35 para 40 h semanais o que possibilitou, com o mesmo pessoal e sem aumento de despesa, mais atendimento aos doentes ; o governo posterior do PS reverteu também esta situação, tendo sido necessário contratar mais pessoal para realizar o mesmo volume de serviço – e isto absorveu uma parte do aumento de verba destinado ao SNS.
Para concluir : Pelo que oiço e vejo nas notícias e pela minha experiência como utilizador do SNS, o está verdadeiramente em causa nas queixas são as demoras no atendimento e a necessidade, por vezes, de percorrer maiores distâncias para ser atendido, mas não a qualidade daquele. Pessoalmente continuo convicto de que a qualidade técnica e humana dos serviços prestados pelo SNS ( salvo raras e desonrosas excepções ) é do melhor que se pode obter.
Lisboa, 3 de Janeiro de 2020
quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
O NATAL E O ORÇAMENTO DE ESTADO PARA 2020
A apresentação do OE para 2020 vai acontecer em plena época natalícia.
É natural pois que todos, pessoas, organizações sindicais e patronais, partidos políticos, peçam, com bons ou maus modos, uma ou várias prendas que satisfaçam os seus interesses, ou mesmo simplesmente o seu ego.
Como o saco da Pai Natal, ou seja a riqueza gerada em Portugal, tem recursos bem limitados, o Pai Natal, personificado pelo Governo, tem que fazer escolhas de forma a atender ao mais importante e ao mais urgente.
Muitos dos pedidos feitos são contraditórios e não se compreende bem como cabeças pensantes os podem formular. Exemplo : A baixa do IVA para todos os consumidores de electricidade, que segundo informação do Ministério da Finanças representaria uma quebra de receita de mil milhões de euros, e a necessidade – reconhecida por todos – de aumentar a despesa no Serviço Nacional de Saúde .
Os que defendem aquele tipo de posição, aumento de despesa com diminuição de receita que se traduz em aumento de défice nas contas públicas, pensam que não interessa ter défice 0 .
Porém,
o grande e fatal óbice de não ter défice 0 é obrigar o Estado a contrair mais empréstimos, junto de aforradores, especuladores, etc., a pagar os juros correspondentes e mais tarde a pagar o capital emprestado.
Sabendo-se que, números do Banco de Portugal de Agosto, a dívida pública é de 252,1 mil milhões de euros, ou seja 119,3% do PIB, a perspectiva de a aumentar é aterradora e só pode ser concebida por quem pensa que as dívidas não são para pagar.
( Será que que os possíveis emprestadores têm obrigação de nos ir emprestando dinheiro , sem o receberem mais tarde ? )
Quem assim pensa, procede desse modo na sua vida privada, isto é, pede empréstimos quando precisa e depois não paga ?
Como é que se pode confiar em quem não paga dívidas ?
As nações também devem ser honradas e pagar os seus compromissos financeiros. Para isso é necessário ter superavit nas contas públicas e ir pagando aos credores duma forma faseada e aceitável por ambas as partes.
Graças à acção do Banco Central Europeu e à boa gestão da dívida pública por parte do Ministério das Finanças, o peso do pagamento dos juros aos credores na economia nacional tem consistentemente diminuído . Mas até quando a política actual do BCE se manterá?
Até quando os juros de novos empréstimos, que será necessário ir contraindo para pagar empréstimos cujo prazo de liquidação tenha chegado ao fim, se manterão baixos?
Um país como Portugal que não é auto suficiente na energia que utiliza, na alimentação que consome, nos medicamentos que necessita, etc. pode dar-se ao luxo de não ter crédito internacional e de viver isolado das outras nações ?
Como resolver então os problemas das pessoas que sofrem pelas mais variadas carências?
A resposta teórica é simples : pôr em prática uma melhor distribuição da riqueza produzida no país de forma que um quinhão considerado suficiente chegue a todos. Conseguir tal objectivo, em liberdade, é fazer política ao mais alto nível
O que devemos desejar neste Natal, e em todos os seguintes, para os Portugueses é a observância generalizada de :
- honestidade intelectual nas opiniões e discussões públicas,
- honestidade nas relações das pessoas com o Estado, e
- honestidade no desempenho dos cargos públicos.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
A PROPÓSITO DUM ARTIGO SOBRE CAPITALISMO MODERNO, RECORDAÇÃO DA PRIMAVERA DE PRAGA (1968 )
No semanário Expresso escrevem vários articulistas e colunistas sobre temas de economia.
O mais humanista de todos é o Sr. Joseph E. Stiglitz que aparece espaçadamente, na penúltima página do caderno de Economia, a duas colunas sob o título de “Pensamento não Convencional”.
Este economista foi prémio Nobel em 2001, vice-presidente sénior e economista chefe do Banco Mundial de 1997 a 2000 e é professor da Universidade de Columbia . É autor de vários livros, alguns traduzidos em português como “ O Preço da Desigualdade”, “o Fim da Desigualdade”, “ Por uma Sociedade da Aprendizagem”, “A Economia mais Forte do Mundo”, “O Euro e a sua Ameaça para o Futuro da Europa”.
Tem sido um adversário claro das políticas económicas neo liberais que tanta desigualdade na distribuição de rendimentos têm trazido aos povos onde são aplicadas ( nomeadamente na Europa e nos EUA ) Acredita na economia de mercado devidamente regulada e num sistema capitalista onde todos ganhem – empregados por conta de outrem, fornecedores e clientes das empresas, finanças públicas através da recolha dos impostos devidos – e não apenas os manda-chuva das empresas ( também chamados de CEO ! ), os que lhes estão próximo e os proprietários/accionistas, - com recurso a esmifrar empregados e fornecedores, a tentar enganar clientes através da publicidade e a fugir ao pagamento de impostos. Por outras palavras, é um prosélito da responsabilidade social das empresas
No seu artigo de 14 de Setembro de 2019, Stiglitz informa-nos que parece haver uma reviravolta no pensamento dos chefes de empresa mais importantes da América, membros da Mesa Redonda Empresarial dos EUA, ao assinarem um documento em que consideram que “os negócios são mais que o seu resultado final “
Será que voltaremos a ter um capitalismo com cariz social como a Europa teve a seguir à Guerra Mundial de 1939-1945 ?
Stiglitz tem dúvidas e no seu artigo apresenta-as, dizendo que entre os signatários estão muitos dos que usam paraísos fiscais para fugir aos impostos, outros que apoiaram as leis Trump sobre impostos que favorecem os ricos em detrimento das classes médias e dos pobres, e também porque as leis americanas não favorecem os que se preocupam com o ambiente, a saúde e a segurança no local de trabalho, e que os representantes dos grandes bancos responsáveis pela crise de 2008 não estão entre os signatários.
Ou seja, este eventual volte-face, esta tentativa de dar um ” rosto humano ao capitalismo” corre o risco de não passar do papel e de ter o mesmo destino da tentativa do Sr. A. Dubcek, secretário geral do partido comunista da Checoslováquia, de dar em 1968 um“ rosto humano” ao comunismo, ou seja acabar esmagado por forças mais poderosas. No caso da Checoslováquia foram as tropas do Pacto de Varsóvia ; no caso presente as “forças mais poderosas” serão as forças do capitalismo financeiro americano e internacional com a sua ganância e a sua falta de humanismo.
Os governos dos países da EU deveriam ter políticas de promoção efectiva da responsabilidade social das empresas
Lisboa, 23 de Setembro de 2019
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