terça-feira, 18 de setembro de 2018
A NOVA LEI DE BASES DO SERVIÇO NACIONAL DE SAUDE
O Serviço Nacional de Saúde ( a maior conquista social resultante da Revolução de 25 de Abril de 1974, logo seguida da instrução escolar obrigatória para todos ) é um assunto que está constantemente no cerne das discussões públicas:
Pelos partidos políticos que estão na oposição para atacar o Governo, pelos partidos que apoiam o Governo para defender o SNS e para lhe serem introduzidas melhorias, pelos profissionais da saúde para obter melhores remunerações ou melhores condições de trabalho, pelos jornalistas porque sabem que é um tema de audiência garantida, pelos opositores do SNS para tentar desacreditá-lo, e também por algumas pessoas que se interessam genuinamente pela saúde dos portugueses.
Entrando mais uma vez na discussão, como apoiante incondicional do SNS tendencionalmente gratuito para TODA a
população, vou referir-me a três documentos importantes, um porque esteve em discussão pública até recentemente - a proposta de alteração da Lei de Bases da Saúde emanada dum grupo de trabalho ( GT ) nomeado pelo Governo -, outro porque representa o pensamento estratégico do PSD, o partido com mais deputados no Parlamento, relativamente ao SNS e outro ainda porque representa o pensamento de António Arnaut, o criador em 1979 do SNS ( tal como vem expresso no livro “Salvar o SNS” escrito em colaboração com o Dr. João Semedo ).
No documento divulgado pelo PSD, o tema a que é dado grande ênfase é o da constituição de parcerias publico-privadas (PPP)
para gerir os hospitais públicos, e numa segunda fase as unidades de cuidados primários. O argumento, segundo dizem tirado dos relatórios do Tribunal de Contas, é que gestão PPP dos hospitais de Braga e Cascais sai mais barato aos contribuintes portugueses. Isto apesar das despesas da gestão incluírem o lucro para os privados que, sem dúvida prestimosamente, gerem os hospitais. Não disponho de elementos para poder contrariar ou não os números do PPD- PSD. Mas teoricamente não parece nada lógico : então sendo os vencimentos dos profissionais de saúde que lá trabalham iguais num e noutro caso, os ordenados dos administradores privados superiores aos dos públicos, havendo que considerar o lucro do trabalho de gestão, quer corra bem quer corra mal, para iguais serviços prestados, os privados conseguem ser mais baratos ?
Isto só será possível se as gestões públicas forem terrivelmente ineficientes ! O que não é aceitável! O Estado tem obrigação de colocar à frente dos hospitais públicos funcionários que sejam capazes de organizar o trabalho de forma a tirar o melhor rendimento dos profissionais e dos equipamentos e reduzir o desperdício ao mínimo, a favor dum tratamento o melhor possível dos utentes, claro. Senão qualquer dia aparece um partido a querer privatizar também o governo do país !!!
O caminho da generalização das PPP na saúde é o caminho para a privatização do SNS e portanto o número 9 da base da Base XX da proposta do GT acima referido NÃO deverá entrar na nova Lei de Bases. A gestão dos hospitais públicos deve ser pública, como previsto no livro de AA e JS e ao contrário da Lei 48/90 do tempo do 1ª Ministro Sr. Cavaco Silva
O ponto seguinte é um apontamento sobre o funcionamento dos seguros de saúde .
A proposta do GT diz na Base XXX, número 2 o seguinte, e cito :
2.A celebração de contratos de seguro deve ser precedida da prestação, pela entidade seguradora, de informação, clara e inteligível, quanto às condições do seguro, âmbito e limites da cobertura, incluindo informação expressa quanto à eventual interrupção ou descontinuidade de tratamentos caso sejam alcançados os limites contratualmente estabelecidos, de forma a permitir uma decisão acertada. “
A proposta do livro ” Salvar o SNS “ diz o seguinte, e transcrevo
“ 2- Os prestadores de cuidados de saúde são responsáveis pela continuação e conclusão de qualquer tratamento que tenham aceite iniciar sob a cobertura se seguro de saúde, não podendo o mesmo ser interrompido ou descontinuado em virtude da cobertura da respetiva apólice ser insuficiente para assegurar o pagamento da despesa realizada ou prevista
A 1ª alternativa protege as seguradas ( elemento mais forte ) , a 2ª alternativa protege os segurados ( o elemento mais fraco ) e portanto na minha maneira de ver a segunda deve ser adoptada.
Uma Base nova que aparece na proposta do GT é a XXXVI que diz respeito aos “Direitos e deveres dos profissionais de saúde” Na parte dos Direitos aparece a alínea c) que estipula, e cito,
c) Contribuir para a gestão rigorosa, eficaz e eficiente dos recursos existentes
Na minha opinião, se isto constitui um direito, é sobretudo um DEVER ! Pode lá admitir-se que um profissional não tenha o DEVER de contribuir para a gestão rigorosa, eficaz e eficiente dos recursos disponíveis ?
A alínea deve pois deixar a lista dos direitos e engrossar a lista dos deveres. Para responsabilizar os que se esquecem deste princípio básico duma actividade profissional, esta alteração é fundamental. Dum direito pode-se prescindir, dum dever não !
Ainda sobre os médicos, na proposta do GT deixa de figurar uma possibilidade que a lei do tempo do Sr. Cavaco Silva permitia o que transcrevo a seguir : Base XXX 32 . 6 – A lei pode prever que os médicos da carreira hospitalar sejam autorizados a assistir, nos hospitais, os seus doentes privados, em termos regulamentar.
De facto não faz sentido que havendo listas de espera para cirurgias nos hospitais públicos, doentes em regime privado dos respectivos médicos possam ser atendidos, em regime privado naqueles. E possivelmente passando à frente de doentes do regime público à espera há mais tempo !
Finalmente, vou abordar o assunto dos medicamentos.
Na Lei nº 56/79, a primeira lei sobre o SNS, o Art. 14 dizia-nos que os utentes do SNS tinham direito às seguintes prestações, e cito :
a) Cuidados de promoção e vigilância da saúde e de prevenção da doença;
b) Cuidados médicos de clínica geral e de especialidade;
c) Cuidados de enfermagem;
d) Internamento hospitalar;
e) transporte de doentes quando medicamente indicado;
f) Elementos complementares de diagnóstico e tratamentos especializados;
g) Suplementos alimentares dietéticos;
h) Medicamentos e produtos medicamentosos ;
i)Próteses, ortóteses e outros aparelhos complementares terapêuticos;
j) Apoio social em articulação com os serviços de segurança social.
Esta listagem desapareceu na Lei 48/90 que ainda está em vigor ( embora os utentes tenham continuado a ter aqueles benefícios ) e não aparece também , nas propostas do livro de AA e JS nem na do GT. Possivelmente devemos pensar que o “direito aos cuidados de saúde dos cidadãos” engloba tudo aquilo mas na verdade não está explicitado. Para certas coisas mais vale a mais do que a menos … E aproveito para perguntar, porque razão o Estado, o principal prestador de cuidados de saúde sem fins lucrativos, não há de dispor de unidades produtoras de medicamentos. O custo com medicamentos constitui uma importante fatia dos gastos com cuidados de saúde e portanto seria interessante estudar se unidades fabris do Estado seriam competitivas no preço final com as dos privados. Aliás um bom laboratório público apetrechado para produzir fármacos em caso de crise deveria estar sempre disponível. O Laboratório Militar tem capacidade para isso ? Se não tem , deveria ter !. É uma questão de segurança nacional.
Lisboa, 18 de Setembro de 2018
domingo, 16 de setembro de 2018
A DISCUSSÃO SOBRE A RECONDUÇÃO OU NÃO DA PGR JOANA MARQUES VIDAL
Começou há meses nos meios de comunicação social a discussão sobre a recondução ou não da actual Procuradora Geral da República, cujo mandato termina em Outubro, para novo período de 6 anos.
De acordo com a legislação nem uma coisa nem outra são obrigatórias : a decisão depende do 1º Ministro e do Presidente da República, ouvidos os partidos políticos.
Os partidos da direita têm-se manifestado activamente a favor, o PCP contra, o PS e BE aguardam.
Os grandes argumentos a favor têm que ver com a sua alegada coragem de não hesitar em instaurar e fazer andar processos contra antigos governantes ( Srs. José Sócrates, Armando Vara, etc, ) , ministros em funções na altura ( Sr.
Miguel Macedo ) pessoas consideradas muito importantes por terem muito dinheiro ( Sr. Ricardo Salgado, etc ) ou por representarem entidades quase míticas, como o Sr. Paulo Gonçalves ao tempo advogado do Benfica
E em consequência, a maioria dos observadores considera que a se Senhora não se deixou intimidar pela importância política ou financeira ou social dos averiguados e fez andar as coisas. deve continuar pois oferece garantias
Outros, como a Srª Ana Gomes ( no programa da SIC Notícias do dia 9 de Setembro de 2018 )considera que aquilo é verdade, mas que outros assuntos também importantes ficaram pelo caminho, como o caso dos 2 submarinos para a Armada Portuguesa que teve condenações na Alemanha por corrupção e em Portugal, foi arquivado, o caso apagão fiscal, etc.
Aqui faço um parêntesis para lastimar que pessoas que tão alto subiram nas suas hierarquias, estejam a ser investigadas por crimes de corrupção. Se se confirmarem as acusações, onde está o exemplo que deviam dar aos seus concidadãos?
E também é triste verificar que se considera um acto coragem o cumprimento dos deveres de PGR e que possivelmente não haverá muita gente capaz de o fazer.
Não abona muito sobre o que os portugueses pensam de si próprios
No capítulo de pontos negativos no mandato da actual PGR, não posso deixar de referir que não conseguiu evitar clamorosas e repetidas fugas de informação ao segredo de justiça permitindo assim julgamentos populares, julgamentos de carácter na praça pública
Penso que que Srª Procuradora deveria ser substituída por uma nova personalidade, não porque não tivesse desempenhado duma forma mais positiva que negativa o seu mandato, mas porque 6 anos no num cargo directivo daquela responsabilidade é o tempo razoável – até porque certamente é muito desgastante
Pois, mas quem é que V. lá punha ? – perguntarão.. Não conheço as pessoas do Ministério Público para dar uma resposta concreta, mas quero crer que existem pessoas adequadas
Por exemplo uma pessoa com o perfil da Procuradora Distrital de Lisboa Maria José Morgado não andaria longe do ideal. Acredito que nunca pacturaria com corrupções políticas, financeiras ou futebolísticas…
Lisboa, 15 de Setembro de 2018
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
A ÉPOCA DOS COMBOIOS
Quando eu era criança e brincava com os rapazes da minha geração no Parque Mira Torres, certas brincadeiras tinham épocas : havia a época do pião, a época do berlinde, a época do hóquei ( que embora fosse em campo nós imaginávamos que era em patins pois Portugal nesses tempos era campeão do mundo crónico ), a época do lenço. Outras não tinham época como o futebol que podia acontecer em qualquer altura.
Pois para a oposição ao Governo chegou há pouco a época dos comboios. Os comboios andam atrasados, os comboios são suprimidos, os comboios não têm ar condicionado os comboios estão velhos, os comboios são poucos, etc.
Estas deficiências com maior ou menor grau (muitas vezes dramatizadas por interessantes reporters ) são a consequência natural de falta de investimento e de insuficiente manutenção ao longo de décadas. Na empresa privada em que trabalhei, o investimento era pelo menos igual à depreciação do equipamento, para não haver perda de património. Será esta a regra para os equipamentos públicos? Não sei, mas suspeito que não.
A minimização da ferrovia começou com uma resolução dum governo do Sr. Cavaco Silva, que foi do conhecimento geral e que um pequeno livro do Sr. António Alves editado em 2009 sob o título de “O Caminho de Ferro em Portugal” traduz da seguinte forma:.
“Em 1988, o Conselho de Ministros, presidido por Aníbal Cavaco Silva, aprova o “Plano de Modernização dos Caminhos de Ferro 1988-94”. Na sequência deste plano, que apostava exclusivamente nos sistemas ferroviários das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e também nos principais eixos de longo curso, sobretudo no eixo Braga – Faro, cerca de 770 km de via-férrea foram definitivamente encerrados. A norte, esta política de fecho de linhas foi particularmente devastadora”.
Daí em diante as políticas dos vários governos foram sempre muito erráticas, tendo até passado pela ilusão do TGV, em várias versões – ( que seria um ótimo negócio para os fabricantes europeus de equipamento ferroviário) até que o presente Governo assentou num plano para a ferrovia ( um resumo do Ferrovia 2020 pode ser visto em anexo).
Portanto existe um plano em desenvolvimento e as deficiências notadas pelos utentes não poderão ser resolvidas dum dia para outro. E não adianta aos partidos da oposição tentar dramatizar o caso porque este tipo de problemas só se resolve com tempo, trabalho e investimento.
A campanha dos partidos da direita sobre os caminhos de ferro destina-se a tentar demonstrar que o Estado não consegue resolver os problemas e que a privatização seria a solução.
Não acredito que serviços públicos essenciais e onde não há concorrência tragam benefícios para os cidadãos., se forem privatizados. Há logo à partida uma diferença essencial : um serviço público do Estado é para servir os utentes ; um serviço público privatizado, sem concorrência é para servir os investidores e , eventualmente, os utentes. Os transportes públicos pesados tipo CP, Metros, Carris necessitam de grandes investimentos praticamente constantes e, para darem lucro, ou preço dos bilhetes é excessivamente caro ou Estado tem que entrar com grandes compensações
Aliás, considerando as infelizes experiências recentes, que ganharam os portugueses com a privatização da EDP, da REN, da ANA, da Fidelidade ? Nada . Que perderam ? A saída de dividendos para o estrangeiro. E com a privatização dos CTT , melhoraram os serviços prestados ?
Não.
Concluindo : os serviços públicos essenciais que vivem em regime de monopólio devem permanecer na mão dos portugueses, geridos pelo Estado
Lisboa, 30 de Agosto de 2018
ANEXO
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
A SAUDAÇÃO DE CENTRNO À GRÉCIA
A propósito da saída da
Grécia do 3º programa de assistência da UE, Mário Centeno na sua qualidade de
presidente do Eurogrupo, dirigiu, através dum vídeo, palavras de circunstância
aos gregos.
Essa palavras que no meu
entender, são apenas de felicitações e de encorajamento para o futuro, sem
deixar de lembrar os sacrifícios feitos, desencadearam uma onda de críticas
irrazoáveis. Desde logo do professor bon
vivant Yanis Varoufakis ( ex ministro das finanças do 1º governo do Sr.
Tsipras ) , seguindo-se os partidos à esquerda do PS, os partidos à direita e
até o deputado PS, Sr. João Galamba.
O povo grego, como aliás
aconteceu à generalidade dos portugueses, mas não aos que mais tinham, sofreu
ferozes imposições restritivas dos representantes dos seus credores e teve de
se desfazer para as mãos de privados, provavelmente estrangeiros, dos empreendimentos e empresas públicas rentáveis..
Não creio que um homem de esquerda como o 1º Ministro Tsipras tivesse algum
prazer nisso ( outros em circunstâncias semelhantes tiveram ) mas entre não
aceder às exigências dos credores ( sair do euro, voltar a um dracma certamente
sem valor internacional , arriscar-se a não ter quem emprestasse dinheiro,
enfrentar uma miséria muito maior) e negociar com a UE e o FMI, o governo grego
escolheu a segunda hipótese, o menor dos males .
Agora , tal como Portugal, e
desde que cumpra o acordado com a EU, o governo grego pode por em prática um
plano de recuperação da economia que favoreça em primeiro lugar os gregos que
mais precisam e em segundo lugar todo o país.
Terá liberdade de escolher
uma política que gradualmente ponha termo à austeridade e que demonstre que
havia alternativas. É importante, como Portugal tem feito, demonstrar que
existem alternativas às exigências da EU e do FMI. Porquê ? Porque as políticas
económicas destas entidades têm tido um cariz neo-liberal, têm obrigado à privatização para mãos estrangeiras das
empresas nacionais rentáveis, têm obrigado a reduzir as defesas dos
trabalhadores perante os empregadores, têm sacrificado sobretudo a população de
mais baixos rendimentos.
Os governos verdadeiramente
sociais-democratas da UE têm obrigação de lutar por uma economia de carácter
social ( uma economia em que as pessoas sejam realmente mais importantes que o
dinheiro ) em todos os órgãos da EU onde tenham representantes. Será um
trabalho contínuo e duro, pois as nações ( como as pessoas ) mais ricas não
querem abrir mão dos seus privilégios, mas para que a UE tenha significado ( e
eu sou um europeísta ) é preciso menos egoísmo e mais solidariedade.
Quanto à lição a tirar dos casos português e grego para mim é
fundamentalmente esta : não pedir dinheiro emprestado aos bancos, a não ser
para situações pontuais bem definidas, não criar dívidas soberanas, não ter
défices orçamentais. Em suma não estar dependente do dinheiro de terceiros.
Finalmente, sobre as
críticas ao texto do Sr. Mário Centeno são todas compreensíveis, excepto uma :
As do Sr. Varoufakis são naturais pois ele
fracassou em relação ao que pretendia fazer ( e em geral não perdoamos aos
outros os nossos fracassos); as dos partidos à esquerda do PS são naturais
porque ou não aceitam sequer a existência da EU ou abominam as respectivas políticas
económicas ; as críticas dos partidos à direita do PS também são naturais pois
tudo o que Governo e o seu Ministro das Finanças fazem está mal feito. Só não
percebi a critica do Sr. João Galamba mas talvez um dia o mesmo senhor explique
melhor.
Para mim o que disse o Sr.
Mário Centeno não contradiz aquilo em que acredito e que resumidamente aqui
deixei escrito. Por isso não tenho reparos a fazer às suas palavras
Lisboa, 22 de Agosto de 2018
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
NO RESCALDO DAS
NOTÍCIAS SOBRE O INCÊNDIO DE MONCHIQUE
Na semana que se seguiu ao fim do incêndio na serra de Monchique,
pulularam nos meios de comunicação social as opiniões, críticas, conselhos
sobre o assunto. Lentes, doutores, drs., professores, técnicos
teóricos e práticos, directores de jornais, jornalistas, economistas,
ignorantes, populares, etc. deram a sua
opinião, em geral criticando a actuação das chefias, próximas e distantes até
ao mais alto nível, dos combatentes do fogo
e também obviamente o governo. Houve alguns dos críticos que vestiram a
pele de moralistas, atacando as palavras do 1º Ministro por este manifestar
satisfação por num incêndio daquela dimensão não ter havido mortos. Como se
pode manifestar satisfação, perguntam os críticos, se embora não tendo havido
mortos, arderam 28,500 há, ficaram destruídas 50 casas, sendo 12 de 1ª
habitação e houve 41 feridos ( 22 bombeiros ) ? Responderei eu, duma forma
simplista: para quem preza mais a vida humana que os bens materiais, o combate
ao incêndio correu bem ; para quem preza
mais os bens materiais que a vida humana, o combate ao incêndio correu mal
Houve também queixas de que os militares da GNR encarregados de retirar pessoas dos locais de perigo foram algumas vezes
bruscos. As pessoas queriam ficar a defender as suas casas e não as deixaram!
Com as emoções à flor da pele por causa dos acontecimentos é natural que os
proprietários medissem mal o perigo que iriam correr e pensassem que
conseguiriam dominar as circunstâncias . Porem os militares tinham as suas
ordens e não poderiam deixar ficar ninguém para trás. Na aflição do momento,
talvez se tenham esquecido de “pedir por favor”, mas acho que cumpriram as suas
obrigações e que as populações devem estar agradecidas
Não tenho conhecimentos para avaliar se dos pontos de vista táctico e
estratégico o ataque ao fogo foi bem ao mal conduzido. Pelo leitura dos jornais
não faltaram meios ( segundo alguns até houve meios a mais ). Também não ouvi
referências que as recomendações da Comissão Técnica Independente não tivessem
sido seguidas. Nem sequer, pasmem, li comentários sobre dificuldades nas
comunicações . Será que o SIRESP funcionou bem ? Para não ser notícia,
certamente que correspondeu às necessidades !
Para ter resposta a estas questões vou esperar por novo relatório da CTI sobre o combate ao grande incêndio de Monchique.
Mais uma reflexão : será que os criticaram o modo como foi conduzido o
combate teriam feito melhor se estivessem no comando ? É praticamente
impossível saber-se , mas que quase todos os portugueses são “treinadores de
bancada” não tenho dúvida.
Lisboa, 20 de Agosto de 2018
domingo, 19 de agosto de 2018
PESQUISA DE PETRÓLEO AO LARGO DE ALJEZUR
Em 1954, o
professor de Química Geral do IST, Prof. Eng. Francisco de Magalhães
Ilharco, já falecido, ensinava que era preciso procurar fontes alternativas de
energia ( eólica, hídrica, das ondas,
das marés, solar ) pois o petróleo bruto não duraria sempre. Hoje sabe-se que a
abundância de petróleo é muito maior do que se supunha anteriormente, mas que
outros motivos ligados às condições de vida no nosso planeta tornam necessário
utilizar cada vez mais as energias alternativas em detrimento do outrora chamado
“ouro negro” . Porem, no estado actual da tecnologia, o petróleo é
indispensável como matéria prima para a indústria petroquímica, responsável
pela existência de miríades de objectos e instrumentos de utilização corrente.
Vem esta introdução a propósito da proibição feita por
um tribunal de Loulé, no seguimento duma providência cautelar interposta por activistas ambientais, de ser iniciada a
pesquisa de petróleo no mar, ao largo de Aljezur. Um dos argumentos dos
activistas é o de que não foi feito um estudo de impacto ambiental. O Governo
considera importante saber se existe petróleo em condições de exploração para
termos esse trunfo na mão em caso de necessidade e que será feito o estudo de
impacto ambiental se houver petróleo e antes dum eventual início de exploração.
Eu penso que a posição do Governo é sensata porque :
i) Apesar dos avanços no campo das energias renováveis
e da tecnologia, o petróleo vais ser necessário durante muitos anos
ii) Com a confusão que reina no mundo, não será
difícil imaginar circunstâncias em que a escassez de fornecimento ao nosso país
aconteça ou que o preço atinja valores incomportáveis. Tendo fontes locais de
abastecimento, aqueles perigos são minimizados.
iii) Com o desenvolvimento das tecnologias de
prospecção e os cuidados ambientais obrigatórios, os perigos de acidente são
mínimos
iv) Existe um contrato assinado pelo anterior governo
com o consórcio Galp+ENI para a dita exploração, o qual para ser resolvido
traria certamente custos ao erário público.
Há diferença entre saber que existe petróleo e
explora-lo. Avançar com uma eventual exploração, na minha opinião, só em caso
de emergência ou se um estudo ambiental rigoroso mostrar que não existe perigo para
o ambiente, nem sequer perigo para o turismo na costa vicentina ou algarvia.
No que
respeita a metas ambientais, com ou sem petróleo, Portugal tem obrigação de
cumprir o que foi acordado em Paris e com os parceiros da União Europeia
Como é sabido, o Reino Unido e a Noruega têm
prospecção e exploração de petróleo ao largo das suas costas e não me consta
que sejam países para os quais a defesa do ambiente não interessa. Isto para concluir
que existem hoje em dia tecnologias bastante seguras.
Certamente os nossos ambientalistas, apesar das suas
preocupações vão continuar a andar em carros movidos a gasolina ou gasóleo, a
viajar de avião a jacto durante mais alguns anos…
Lisboa, 18 de Agosto de 2018
domingo, 8 de julho de 2018
AS ALTERAÇÕES ÀS LEIS LABORAIS
AS
ALTERAÇÕES ÀS LEIS LABORAIS
Os factos :
Em 30/5/2018, na Concertação Social, os representantes do patronato e da
central sindical UGT aprovaram algumas alterações ao Código do Trabalho,
mediante uma proposta do Governo. A central sindical CGTP não aprovou, ficando
de fora do acordo. As propostas de alteração terão de ser aprovadas pela
Assembleia da República para terem força de lei.
O objectivo
primordial da proposta foi alegadamente o combate a `precaridade no emprego.
Todos estamos de acordo que, nas relações patrões-
trabalhadores, principalmente quando o desemprego é elevado como se tem
verificado em Portugal desde a crise económica de 2008, a balança pende para o
lado do patronato. Esta circunstância foi acentuada pela revisão do Código de
Trabalho ( CT ) feita pelo governo PSD+CDS durante o tempo da troika. A revisão
abriu ainda mais as portas aos contratos a prazo, ou seja à precaridade no
emprego e à desregulação dos horários de trabalho ( com a ampliação da
possibilidade de criar bancos de horas ). Sabemos que todas as decisões que tomamos
para o futuro da nossa vida são um risco, mas há circunstâncias em que o risco
é maior que noutras. No caso duma pessoa jovem ter um emprego a prazo, como
pode tomar a decisão de constituir família, ou adquirir uma casa para habitação
própria sem risco demasiado ? Colateralmente, esta dificuldade também terá reflexos
no índice de natalidade, o qual todos os partidos e instituições dizem que pretendem
aumentar
Portanto é necessário acentuar e reforçar a protecção
dos trabalhadores contra eventuais abusos,
Lendo o que foi proposto e acordado, o tema que salta
decididamente à vista é o alargamento do período experimental dos contratos sem
termo certo de trabalhadores à procura do 1º emprego ou em situação de
desemprego de longa duração, de 90 para 180 dias.
Esta alteração anula a alínea b) do Nº 4 do Art. 140 ª
.
Percebe-se que a ideia seja a de conseguir que os
jovens obtenham o seu primeiro emprego sem ser com um contrato a prazo. O que é
sem dúvida uma ideia positiva
Porem, esta disposição permitirá aos empregadores
pouco escrupulosos substituir contratos a prazo de 6 meses, com compensação no
final, por períodos experimentais, findos os quais o patrão declara que o
trabalhador não serve – e venha outro - sem mais encargos. Esta alteração, a ser posta em prática, deverá ser cuidadosamente
monitorizada durante o tempo suficiente para detectar se terá sido usada com má
fé por parte de empregadores
(Segundo o nº2 do Art. 344º do Código de Trabalho, o
trabalhador tem direito a receber 18 dias de salário no termo dum contrato a
prazo se aquele for decidido pelo empregador)
As possibilidades dum empregador contratar a prazo
estão bem definidas ( alíneas a) a h) do
nº 1 do Art. 140º do CT ) e portanto se todos os empregadores fossem
cumpridores da legislação, ou a autoridade de fiscalização das condições de
trabalho tivesse meios suficientes para actuar, ou ainda se houvesse um
programa de informática para cruzar dados, não haveria razões para contratos de
trabalho a termo sem razão legal. Na inexistência das condições acima
referidas, a redução da duração máxima dos contratos a termo de 3 para 2 anos,
o estabelecimento de que a duração total das renovações não pode exceder a do
período inicial do contrato e a contribuição adicional para a Segurança Social
em caso de abuso de contratos a prazo, são medidas positivas, Aliás a detecção
de abusos traduzidos em rotatividade excessiva deveria desencadear de imediato
a averiguação se os contratos a prazo tinham justificação aceitável ou não. Em
caso de serem descobertas infracções ao CT, as penalizações previstas deveriam
ser aplicadas com rigor e vigor . A contribuição adicional para a segurança
social por rotatividade excessiva no máximo de 2% não parece desencorajador de
abusos. Repetindo: a contratação a termo
de trabalhadores está dentro das possibilidades dadas pelo CT ou não está. Se
não está, a punição deve ser desencorajadora !
A redução da duração dos contratos temporários a termo
incerto de 6 para 4 anos também parece uma medida destinada a evitar abusos de
precaridade.
A possibilidade de
criação de bancos de horas já vinha da Lei 7/2009 ( Art. 208º do CT )
promulgada durante um governo PS, mas unicamente em função duma regulamentação
colectiva. A Lei 23/2012 ( do tempo do governo PSD+CDS+troika ), que
modificou a redacção do CT, introduziu os Art. 208ºA e 208ºB que permitiam os
bancos de horas individual e grupal. O banco de horas individual, sendo da
iniciativa da empresa e tendo apenas como interlocutores o empregador e o trabalhador
poderia levar a circunstâncias em que este, contrafeito, teria de aceitar a
proposta daquele. Por isso a eliminação da sua possibilidade vem proteger o
trabalhador e é de aplaudir. Quanto ao banco de horas grupal, o mecanismo
proposto impõe que o mesmo seja aprovado pelo menos por 65% dos trabalhadores e
por voto secreto, devidamente acompanhado . E o limite máximo de horas semanais
baixa de 60 para 50 e anuais e 200 para 150. Mantem- se, presume-se a
possibilidade de compensar aa horas a mais feitas num dado período por redução
do horário de trabalho noutro período, aumento do tempo férias ou pagamento em
dinheiro. Penso que também neste caso os trabalhadores ficarão mais protegidos
contra abusos.
A
regulamentação ou contratação colectiva é um processo de negociação que sem
dúvida dá mais força aos trabalhadores face aos empregadores e contribui para a
harmonização de condições de trabalho num determinado sector de actividade. Por
isso é evidente que o CT deve favorecer o estabelecimento de contratações
colectivas e evitar o seu abandono por motivos não razoáveis. A proposta
acordada na Concertação Social prevê medidas nesse sentido.
Assim
no Art. 500º que enuncia as condições em que uma convenção colectiva pode ser
denunciada, é introduzida uma alínea que obriga a fundamentar porque motivos de
ordem económica, estructural ou de desajustamento da convenção é feita a
denúncia e fixa um prazo para a comunicação ao ministério. Seguidamente no
Art.501º sobre” Sobrevigência e Caducidade”, no número 8, são introduzidas as
condições de parentalidade e segurança e saúde no trabalho no rol dos efeitos
que são mantidos até decisão arbitral ou entrada em vigor de nova convenção. No
entanto, não foi revertida a redução do prazo de sobrevigência duma convenção
em caso de denúncia, proposta de revisão ou última publicação integral da
convenção de 5 para 3 anos feita pela Lei 55/2014 (PSD+CDS ) em relação à Lei
7/2009 (PS) .Esta não-reversão tem merecido críticas dos sindicatos afectos à
CGTP por aumentar o perigo de situações em que os trabalhadores não estejam
apoiados por uma convenção colectiva. Por outro lado, a inclusão da
possibilidade de recurso a Tribunal Arbitral em tempo útil por parte dos trabalhadores para interromper o período de sobrevigência
duma convenção é uma medida que permite o prosseguimento das negociações para
alteração de convenção existente ou acordo duma nova .
Em
resumo : A tradução do que foi acordado na Concertação Social em alterações ao
CT poderá trazer vantagens no combate à precaridade, mas aquelas deverão ser
seguidas com muita atenção pela Autoridade do Trabalho.
Lisboa,
7 de Julho de 2018
Subscrever:
Mensagens (Atom)