quinta-feira, 30 de agosto de 2018
A ÉPOCA DOS COMBOIOS
Quando eu era criança e brincava com os rapazes da minha geração no Parque Mira Torres, certas brincadeiras tinham épocas : havia a época do pião, a época do berlinde, a época do hóquei ( que embora fosse em campo nós imaginávamos que era em patins pois Portugal nesses tempos era campeão do mundo crónico ), a época do lenço. Outras não tinham época como o futebol que podia acontecer em qualquer altura.
Pois para a oposição ao Governo chegou há pouco a época dos comboios. Os comboios andam atrasados, os comboios são suprimidos, os comboios não têm ar condicionado os comboios estão velhos, os comboios são poucos, etc.
Estas deficiências com maior ou menor grau (muitas vezes dramatizadas por interessantes reporters ) são a consequência natural de falta de investimento e de insuficiente manutenção ao longo de décadas. Na empresa privada em que trabalhei, o investimento era pelo menos igual à depreciação do equipamento, para não haver perda de património. Será esta a regra para os equipamentos públicos? Não sei, mas suspeito que não.
A minimização da ferrovia começou com uma resolução dum governo do Sr. Cavaco Silva, que foi do conhecimento geral e que um pequeno livro do Sr. António Alves editado em 2009 sob o título de “O Caminho de Ferro em Portugal” traduz da seguinte forma:.
“Em 1988, o Conselho de Ministros, presidido por Aníbal Cavaco Silva, aprova o “Plano de Modernização dos Caminhos de Ferro 1988-94”. Na sequência deste plano, que apostava exclusivamente nos sistemas ferroviários das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e também nos principais eixos de longo curso, sobretudo no eixo Braga – Faro, cerca de 770 km de via-férrea foram definitivamente encerrados. A norte, esta política de fecho de linhas foi particularmente devastadora”.
Daí em diante as políticas dos vários governos foram sempre muito erráticas, tendo até passado pela ilusão do TGV, em várias versões – ( que seria um ótimo negócio para os fabricantes europeus de equipamento ferroviário) até que o presente Governo assentou num plano para a ferrovia ( um resumo do Ferrovia 2020 pode ser visto em anexo).
Portanto existe um plano em desenvolvimento e as deficiências notadas pelos utentes não poderão ser resolvidas dum dia para outro. E não adianta aos partidos da oposição tentar dramatizar o caso porque este tipo de problemas só se resolve com tempo, trabalho e investimento.
A campanha dos partidos da direita sobre os caminhos de ferro destina-se a tentar demonstrar que o Estado não consegue resolver os problemas e que a privatização seria a solução.
Não acredito que serviços públicos essenciais e onde não há concorrência tragam benefícios para os cidadãos., se forem privatizados. Há logo à partida uma diferença essencial : um serviço público do Estado é para servir os utentes ; um serviço público privatizado, sem concorrência é para servir os investidores e , eventualmente, os utentes. Os transportes públicos pesados tipo CP, Metros, Carris necessitam de grandes investimentos praticamente constantes e, para darem lucro, ou preço dos bilhetes é excessivamente caro ou Estado tem que entrar com grandes compensações
Aliás, considerando as infelizes experiências recentes, que ganharam os portugueses com a privatização da EDP, da REN, da ANA, da Fidelidade ? Nada . Que perderam ? A saída de dividendos para o estrangeiro. E com a privatização dos CTT , melhoraram os serviços prestados ?
Não.
Concluindo : os serviços públicos essenciais que vivem em regime de monopólio devem permanecer na mão dos portugueses, geridos pelo Estado
Lisboa, 30 de Agosto de 2018
ANEXO
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
A SAUDAÇÃO DE CENTRNO À GRÉCIA
A propósito da saída da
Grécia do 3º programa de assistência da UE, Mário Centeno na sua qualidade de
presidente do Eurogrupo, dirigiu, através dum vídeo, palavras de circunstância
aos gregos.
Essa palavras que no meu
entender, são apenas de felicitações e de encorajamento para o futuro, sem
deixar de lembrar os sacrifícios feitos, desencadearam uma onda de críticas
irrazoáveis. Desde logo do professor bon
vivant Yanis Varoufakis ( ex ministro das finanças do 1º governo do Sr.
Tsipras ) , seguindo-se os partidos à esquerda do PS, os partidos à direita e
até o deputado PS, Sr. João Galamba.
O povo grego, como aliás
aconteceu à generalidade dos portugueses, mas não aos que mais tinham, sofreu
ferozes imposições restritivas dos representantes dos seus credores e teve de
se desfazer para as mãos de privados, provavelmente estrangeiros, dos empreendimentos e empresas públicas rentáveis..
Não creio que um homem de esquerda como o 1º Ministro Tsipras tivesse algum
prazer nisso ( outros em circunstâncias semelhantes tiveram ) mas entre não
aceder às exigências dos credores ( sair do euro, voltar a um dracma certamente
sem valor internacional , arriscar-se a não ter quem emprestasse dinheiro,
enfrentar uma miséria muito maior) e negociar com a UE e o FMI, o governo grego
escolheu a segunda hipótese, o menor dos males .
Agora , tal como Portugal, e
desde que cumpra o acordado com a EU, o governo grego pode por em prática um
plano de recuperação da economia que favoreça em primeiro lugar os gregos que
mais precisam e em segundo lugar todo o país.
Terá liberdade de escolher
uma política que gradualmente ponha termo à austeridade e que demonstre que
havia alternativas. É importante, como Portugal tem feito, demonstrar que
existem alternativas às exigências da EU e do FMI. Porquê ? Porque as políticas
económicas destas entidades têm tido um cariz neo-liberal, têm obrigado à privatização para mãos estrangeiras das
empresas nacionais rentáveis, têm obrigado a reduzir as defesas dos
trabalhadores perante os empregadores, têm sacrificado sobretudo a população de
mais baixos rendimentos.
Os governos verdadeiramente
sociais-democratas da UE têm obrigação de lutar por uma economia de carácter
social ( uma economia em que as pessoas sejam realmente mais importantes que o
dinheiro ) em todos os órgãos da EU onde tenham representantes. Será um
trabalho contínuo e duro, pois as nações ( como as pessoas ) mais ricas não
querem abrir mão dos seus privilégios, mas para que a UE tenha significado ( e
eu sou um europeísta ) é preciso menos egoísmo e mais solidariedade.
Quanto à lição a tirar dos casos português e grego para mim é
fundamentalmente esta : não pedir dinheiro emprestado aos bancos, a não ser
para situações pontuais bem definidas, não criar dívidas soberanas, não ter
défices orçamentais. Em suma não estar dependente do dinheiro de terceiros.
Finalmente, sobre as
críticas ao texto do Sr. Mário Centeno são todas compreensíveis, excepto uma :
As do Sr. Varoufakis são naturais pois ele
fracassou em relação ao que pretendia fazer ( e em geral não perdoamos aos
outros os nossos fracassos); as dos partidos à esquerda do PS são naturais
porque ou não aceitam sequer a existência da EU ou abominam as respectivas políticas
económicas ; as críticas dos partidos à direita do PS também são naturais pois
tudo o que Governo e o seu Ministro das Finanças fazem está mal feito. Só não
percebi a critica do Sr. João Galamba mas talvez um dia o mesmo senhor explique
melhor.
Para mim o que disse o Sr.
Mário Centeno não contradiz aquilo em que acredito e que resumidamente aqui
deixei escrito. Por isso não tenho reparos a fazer às suas palavras
Lisboa, 22 de Agosto de 2018
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
NO RESCALDO DAS
NOTÍCIAS SOBRE O INCÊNDIO DE MONCHIQUE
Na semana que se seguiu ao fim do incêndio na serra de Monchique,
pulularam nos meios de comunicação social as opiniões, críticas, conselhos
sobre o assunto. Lentes, doutores, drs., professores, técnicos
teóricos e práticos, directores de jornais, jornalistas, economistas,
ignorantes, populares, etc. deram a sua
opinião, em geral criticando a actuação das chefias, próximas e distantes até
ao mais alto nível, dos combatentes do fogo
e também obviamente o governo. Houve alguns dos críticos que vestiram a
pele de moralistas, atacando as palavras do 1º Ministro por este manifestar
satisfação por num incêndio daquela dimensão não ter havido mortos. Como se
pode manifestar satisfação, perguntam os críticos, se embora não tendo havido
mortos, arderam 28,500 há, ficaram destruídas 50 casas, sendo 12 de 1ª
habitação e houve 41 feridos ( 22 bombeiros ) ? Responderei eu, duma forma
simplista: para quem preza mais a vida humana que os bens materiais, o combate
ao incêndio correu bem ; para quem preza
mais os bens materiais que a vida humana, o combate ao incêndio correu mal
Houve também queixas de que os militares da GNR encarregados de retirar pessoas dos locais de perigo foram algumas vezes
bruscos. As pessoas queriam ficar a defender as suas casas e não as deixaram!
Com as emoções à flor da pele por causa dos acontecimentos é natural que os
proprietários medissem mal o perigo que iriam correr e pensassem que
conseguiriam dominar as circunstâncias . Porem os militares tinham as suas
ordens e não poderiam deixar ficar ninguém para trás. Na aflição do momento,
talvez se tenham esquecido de “pedir por favor”, mas acho que cumpriram as suas
obrigações e que as populações devem estar agradecidas
Não tenho conhecimentos para avaliar se dos pontos de vista táctico e
estratégico o ataque ao fogo foi bem ao mal conduzido. Pelo leitura dos jornais
não faltaram meios ( segundo alguns até houve meios a mais ). Também não ouvi
referências que as recomendações da Comissão Técnica Independente não tivessem
sido seguidas. Nem sequer, pasmem, li comentários sobre dificuldades nas
comunicações . Será que o SIRESP funcionou bem ? Para não ser notícia,
certamente que correspondeu às necessidades !
Para ter resposta a estas questões vou esperar por novo relatório da CTI sobre o combate ao grande incêndio de Monchique.
Mais uma reflexão : será que os criticaram o modo como foi conduzido o
combate teriam feito melhor se estivessem no comando ? É praticamente
impossível saber-se , mas que quase todos os portugueses são “treinadores de
bancada” não tenho dúvida.
Lisboa, 20 de Agosto de 2018
domingo, 19 de agosto de 2018
PESQUISA DE PETRÓLEO AO LARGO DE ALJEZUR
Em 1954, o
professor de Química Geral do IST, Prof. Eng. Francisco de Magalhães
Ilharco, já falecido, ensinava que era preciso procurar fontes alternativas de
energia ( eólica, hídrica, das ondas,
das marés, solar ) pois o petróleo bruto não duraria sempre. Hoje sabe-se que a
abundância de petróleo é muito maior do que se supunha anteriormente, mas que
outros motivos ligados às condições de vida no nosso planeta tornam necessário
utilizar cada vez mais as energias alternativas em detrimento do outrora chamado
“ouro negro” . Porem, no estado actual da tecnologia, o petróleo é
indispensável como matéria prima para a indústria petroquímica, responsável
pela existência de miríades de objectos e instrumentos de utilização corrente.
Vem esta introdução a propósito da proibição feita por
um tribunal de Loulé, no seguimento duma providência cautelar interposta por activistas ambientais, de ser iniciada a
pesquisa de petróleo no mar, ao largo de Aljezur. Um dos argumentos dos
activistas é o de que não foi feito um estudo de impacto ambiental. O Governo
considera importante saber se existe petróleo em condições de exploração para
termos esse trunfo na mão em caso de necessidade e que será feito o estudo de
impacto ambiental se houver petróleo e antes dum eventual início de exploração.
Eu penso que a posição do Governo é sensata porque :
i) Apesar dos avanços no campo das energias renováveis
e da tecnologia, o petróleo vais ser necessário durante muitos anos
ii) Com a confusão que reina no mundo, não será
difícil imaginar circunstâncias em que a escassez de fornecimento ao nosso país
aconteça ou que o preço atinja valores incomportáveis. Tendo fontes locais de
abastecimento, aqueles perigos são minimizados.
iii) Com o desenvolvimento das tecnologias de
prospecção e os cuidados ambientais obrigatórios, os perigos de acidente são
mínimos
iv) Existe um contrato assinado pelo anterior governo
com o consórcio Galp+ENI para a dita exploração, o qual para ser resolvido
traria certamente custos ao erário público.
Há diferença entre saber que existe petróleo e
explora-lo. Avançar com uma eventual exploração, na minha opinião, só em caso
de emergência ou se um estudo ambiental rigoroso mostrar que não existe perigo para
o ambiente, nem sequer perigo para o turismo na costa vicentina ou algarvia.
No que
respeita a metas ambientais, com ou sem petróleo, Portugal tem obrigação de
cumprir o que foi acordado em Paris e com os parceiros da União Europeia
Como é sabido, o Reino Unido e a Noruega têm
prospecção e exploração de petróleo ao largo das suas costas e não me consta
que sejam países para os quais a defesa do ambiente não interessa. Isto para concluir
que existem hoje em dia tecnologias bastante seguras.
Certamente os nossos ambientalistas, apesar das suas
preocupações vão continuar a andar em carros movidos a gasolina ou gasóleo, a
viajar de avião a jacto durante mais alguns anos…
Lisboa, 18 de Agosto de 2018
domingo, 8 de julho de 2018
AS ALTERAÇÕES ÀS LEIS LABORAIS
AS
ALTERAÇÕES ÀS LEIS LABORAIS
Os factos :
Em 30/5/2018, na Concertação Social, os representantes do patronato e da
central sindical UGT aprovaram algumas alterações ao Código do Trabalho,
mediante uma proposta do Governo. A central sindical CGTP não aprovou, ficando
de fora do acordo. As propostas de alteração terão de ser aprovadas pela
Assembleia da República para terem força de lei.
O objectivo
primordial da proposta foi alegadamente o combate a `precaridade no emprego.
Todos estamos de acordo que, nas relações patrões-
trabalhadores, principalmente quando o desemprego é elevado como se tem
verificado em Portugal desde a crise económica de 2008, a balança pende para o
lado do patronato. Esta circunstância foi acentuada pela revisão do Código de
Trabalho ( CT ) feita pelo governo PSD+CDS durante o tempo da troika. A revisão
abriu ainda mais as portas aos contratos a prazo, ou seja à precaridade no
emprego e à desregulação dos horários de trabalho ( com a ampliação da
possibilidade de criar bancos de horas ). Sabemos que todas as decisões que tomamos
para o futuro da nossa vida são um risco, mas há circunstâncias em que o risco
é maior que noutras. No caso duma pessoa jovem ter um emprego a prazo, como
pode tomar a decisão de constituir família, ou adquirir uma casa para habitação
própria sem risco demasiado ? Colateralmente, esta dificuldade também terá reflexos
no índice de natalidade, o qual todos os partidos e instituições dizem que pretendem
aumentar
Portanto é necessário acentuar e reforçar a protecção
dos trabalhadores contra eventuais abusos,
Lendo o que foi proposto e acordado, o tema que salta
decididamente à vista é o alargamento do período experimental dos contratos sem
termo certo de trabalhadores à procura do 1º emprego ou em situação de
desemprego de longa duração, de 90 para 180 dias.
Esta alteração anula a alínea b) do Nº 4 do Art. 140 ª
.
Percebe-se que a ideia seja a de conseguir que os
jovens obtenham o seu primeiro emprego sem ser com um contrato a prazo. O que é
sem dúvida uma ideia positiva
Porem, esta disposição permitirá aos empregadores
pouco escrupulosos substituir contratos a prazo de 6 meses, com compensação no
final, por períodos experimentais, findos os quais o patrão declara que o
trabalhador não serve – e venha outro - sem mais encargos. Esta alteração, a ser posta em prática, deverá ser cuidadosamente
monitorizada durante o tempo suficiente para detectar se terá sido usada com má
fé por parte de empregadores
(Segundo o nº2 do Art. 344º do Código de Trabalho, o
trabalhador tem direito a receber 18 dias de salário no termo dum contrato a
prazo se aquele for decidido pelo empregador)
As possibilidades dum empregador contratar a prazo
estão bem definidas ( alíneas a) a h) do
nº 1 do Art. 140º do CT ) e portanto se todos os empregadores fossem
cumpridores da legislação, ou a autoridade de fiscalização das condições de
trabalho tivesse meios suficientes para actuar, ou ainda se houvesse um
programa de informática para cruzar dados, não haveria razões para contratos de
trabalho a termo sem razão legal. Na inexistência das condições acima
referidas, a redução da duração máxima dos contratos a termo de 3 para 2 anos,
o estabelecimento de que a duração total das renovações não pode exceder a do
período inicial do contrato e a contribuição adicional para a Segurança Social
em caso de abuso de contratos a prazo, são medidas positivas, Aliás a detecção
de abusos traduzidos em rotatividade excessiva deveria desencadear de imediato
a averiguação se os contratos a prazo tinham justificação aceitável ou não. Em
caso de serem descobertas infracções ao CT, as penalizações previstas deveriam
ser aplicadas com rigor e vigor . A contribuição adicional para a segurança
social por rotatividade excessiva no máximo de 2% não parece desencorajador de
abusos. Repetindo: a contratação a termo
de trabalhadores está dentro das possibilidades dadas pelo CT ou não está. Se
não está, a punição deve ser desencorajadora !
A redução da duração dos contratos temporários a termo
incerto de 6 para 4 anos também parece uma medida destinada a evitar abusos de
precaridade.
A possibilidade de
criação de bancos de horas já vinha da Lei 7/2009 ( Art. 208º do CT )
promulgada durante um governo PS, mas unicamente em função duma regulamentação
colectiva. A Lei 23/2012 ( do tempo do governo PSD+CDS+troika ), que
modificou a redacção do CT, introduziu os Art. 208ºA e 208ºB que permitiam os
bancos de horas individual e grupal. O banco de horas individual, sendo da
iniciativa da empresa e tendo apenas como interlocutores o empregador e o trabalhador
poderia levar a circunstâncias em que este, contrafeito, teria de aceitar a
proposta daquele. Por isso a eliminação da sua possibilidade vem proteger o
trabalhador e é de aplaudir. Quanto ao banco de horas grupal, o mecanismo
proposto impõe que o mesmo seja aprovado pelo menos por 65% dos trabalhadores e
por voto secreto, devidamente acompanhado . E o limite máximo de horas semanais
baixa de 60 para 50 e anuais e 200 para 150. Mantem- se, presume-se a
possibilidade de compensar aa horas a mais feitas num dado período por redução
do horário de trabalho noutro período, aumento do tempo férias ou pagamento em
dinheiro. Penso que também neste caso os trabalhadores ficarão mais protegidos
contra abusos.
A
regulamentação ou contratação colectiva é um processo de negociação que sem
dúvida dá mais força aos trabalhadores face aos empregadores e contribui para a
harmonização de condições de trabalho num determinado sector de actividade. Por
isso é evidente que o CT deve favorecer o estabelecimento de contratações
colectivas e evitar o seu abandono por motivos não razoáveis. A proposta
acordada na Concertação Social prevê medidas nesse sentido.
Assim
no Art. 500º que enuncia as condições em que uma convenção colectiva pode ser
denunciada, é introduzida uma alínea que obriga a fundamentar porque motivos de
ordem económica, estructural ou de desajustamento da convenção é feita a
denúncia e fixa um prazo para a comunicação ao ministério. Seguidamente no
Art.501º sobre” Sobrevigência e Caducidade”, no número 8, são introduzidas as
condições de parentalidade e segurança e saúde no trabalho no rol dos efeitos
que são mantidos até decisão arbitral ou entrada em vigor de nova convenção. No
entanto, não foi revertida a redução do prazo de sobrevigência duma convenção
em caso de denúncia, proposta de revisão ou última publicação integral da
convenção de 5 para 3 anos feita pela Lei 55/2014 (PSD+CDS ) em relação à Lei
7/2009 (PS) .Esta não-reversão tem merecido críticas dos sindicatos afectos à
CGTP por aumentar o perigo de situações em que os trabalhadores não estejam
apoiados por uma convenção colectiva. Por outro lado, a inclusão da
possibilidade de recurso a Tribunal Arbitral em tempo útil por parte dos trabalhadores para interromper o período de sobrevigência
duma convenção é uma medida que permite o prosseguimento das negociações para
alteração de convenção existente ou acordo duma nova .
Em
resumo : A tradução do que foi acordado na Concertação Social em alterações ao
CT poderá trazer vantagens no combate à precaridade, mas aquelas deverão ser
seguidas com muita atenção pela Autoridade do Trabalho.
Lisboa,
7 de Julho de 2018
sábado, 7 de julho de 2018
A
CONTESTAÇÃO AO GOVERNO DE PROFESSORES, MÉDICOS E ENFERMEIROS
Nas últimas semanas a luta contra o Governo do PS dos
professores da Escola Pública, através dos seus sindicatos e dos médicos e
enfermeiros do Serviço Nacional de Saúde, através das suas ordens, tem-se intensificado
duma forma rara ou mesmo nunca vista.
Isto apesar de, no caso dos professores o Governo
estar disposto a continuar as negociações para minorar os prejuízos causados
por anteriores governos, e no caso dos profissionais de saúde ter finalmente
decidido pôr em prática o retorno às 35 horas de trabalho por semana e de ter
contratado mais centenas ou milhares de profissionais para o SNS
Neste texto não vou comentar a razão ou sem-razão das
contestações : quero apenas exprimir a minha perplexidade pelo que se passou
anteriormente e pelo que se passa agora
De facto, primeiro no tempo do Governo Sócrates,
depois duma forma ampliada, no tempo do Governo PSD+CDS, aquelas classes de
servidores do Estado foram atacadas nos seus direitos como nunca tinham sido,
nem nos tempos do Estado dito Novo, com Salazar ou Marcelo Caetano ! (Jamais aqueles chefes de governo se atreveram
a baixar os salários dos funcionários públicos mesmo durante as crises da 2ª
Guerra Mundial, de 1939 a 1945 e da Guerra Colonial, de 1961 a 1974 ).
E no
entanto as formas de luta adoptadas pelos sindicatos face às decisões do
governo Passos Coelho de aumentar as horas de trabalho semanais e de reduzir
ordenados foram tão fracas que quase não me lembro delas
E agora com o Governo António Costa que está pouco a pouco mas determinadamente a
repor direitos é que a luta atinge proporções enormíssimas !
Por que será ?
Será Síndrome de Estocolmo ?
Será puro afecto pelo anterior governo e mero
desafecto pelo actual ?
Ou será por qualquer tipo de raciocínio que escapa ao
cidadão comum e que só sociólogos, psicólogos ou outros estudiosos da mente
humana conseguem explicar ?
Seria interessante saber-se
Lisboa, 7 de Julho de 2017
terça-feira, 12 de junho de 2018
AS REIVINDICAÇÕES DOS PROFESSORES
PARTE 1 –
CENÁRIO EM QUE SE VERIFICAM
Com a melhoria da situação económica portuguesa ( da
situação económica, note-se, pois a situação financeira, enquanto houver défice
nas contas públicas continua a piorar devido ao aumento do valor absoluto da
dívida ), os justos desejos de melhoria das condições de vida dos portuguesas (
condições essas que foram esborrachadas durante o período do governo PSD+CDS+
troika, com a excepção das das classes
mais possidentes ) vieram ao de cima. As exigências sobre o Governo, para
conseguir essas melhorias, por parte dos grupos sociais, dos grupos
profissionais, dos partidos de esquerda e até, pasme-se, das oposições
multiplicam-se.
Listando algumas de que lembro, sem fazer pesquisas :
1. Contagem de tempo de serviço, revisão de
carreiras, melhoria de
estatuto:
·
Professores
dos ensinos primário e secundário
·
Médicos
·
Enfermeiros
·
Magistrados
e funcionários judiciais
·
Pessoal da
Polícia de Segurança Pública
·
Militares da
GNR
·
Militares
das Forças Armadas
·
Pessoal do
SEF
·
Na
generalidade, o restante pessoal dos serviços do Estado
2. Investimentos e pessoal para o SNS
·
Mais médicos
de família
·
Mais médicos
especialistas
·
Mais enfermeiros
·
Mais auxiliares
·
Novos
hospitais
·
Novas alas
hospitalares e dependências
·
Novos
centros de saúde
·
Mais camas
para cuidados continuados e paliativos
·
Modernização
e ampliação dos meios de diagnóstico
·
Grandes
melhorias no INEM
3. Investimentos e pessoal para a Escola Pública
·
Mais
professores para ter aulas com menos alunos
·
Mais
estabelecimentos de pré-primário
·
Mais atenção
às necessidades educativas especiais
·
Mais
auxiliares para as escolas
·
Mais e
melhor desporto escolar
4. Ensino superior e Investigação
·
Mais
residências para estudantes universitários
·
Mais
investigadores para mais projectos
5. Forças Armadas
·
Completar os
quadros de pessoal previstos
·
Substituir e
modernizar o material
6. Serviços de Segurança
·
Mais pessoal
para a ASAE
·
Mais pessoal
para o SEF
·
Mais pessoal
para a PSP
·
Mais pessoal
para os serviços prisionais
·
Mais pessoal
para a GNR
·
Mais pessoal
para a protecção do ambiente e floresta
7. Transportes ferroviários
·
Modernizar
as linhas existentes
·
Mais pessoal
·
Mais
comboios para os Metros
8. Transportes rodoviários
·
Mais
autocarros urbanos
·
Reparação
das estradas nacionais em particular da N125
·
MENOS
impostos nos combustíveis
9. Florestas
·
Limpeza das
matas dos pequenos proprietários a cargo do Governo
·
Mais meios
de combate aos incêndios
10. Cultura
·
Mais
dinheiro para as companhias de teatro independentes
·
Mais pessoal
para os Museus
A pergunta que desde logo se põe é : há dinheiro para
isto tudo ?
E vem logo outra pergunta : e há possibilidade de
baixar os impostos como alguns, senão todos, querem ?
Fazer o orçamento de todas estes desejos e
necessidades compete ao Governo ; os interessados em cada um destes campos
limitam-se ( por vezes, nem sempre ) a fazer as contas para o que lhes
interessa.
Sendo as disponibilidades financeiras limitadas e, na
minha opinião, não convindo aumentar o défice orçamental para não corrermos o
risco de voltarmos à situação desesperada do tempo da troika, compete ao
Governo com espírito social e de justiça decidir. Uma coisa é quase certa : nem
todos os desejos vão ser satisfeitos
Lisboa, 11 de Junho de 2018
PARTE 2 – UMA
SOLUÇÃO POSSÍVEL
O semanário “Expresso” na sua edição de 9 de Junho de
2018, na página 8 sob o título “Crise à Esquerda” (?) traz uma súmula muito bem
apresentada do que representa em termos de dinheiro as proposta do Governo e dos
Sindicatos para descongelar as
progressões na carreira dos professores. Com a devida vénia, transcrevo alguns
dos dados :
1. O efeito do descongelamento a partir
de 2018 implica uma despesa a mais em 2018 de 30 milh € ; em 2019 de 57 milh €
; e a partir de 2023 de 419 milh €.
2. Com a proposta inicial dos
Sindicatos de contar com o descongelamento de 9 anos e 4 meses, a despesa extra
seria em 2018 de 30 milh.€ ; em 2019 de 111 milh.€ ; e a partir de 2023
de 933 milh. €
3. Com a contra-proposta do
Governo de contar com o descongelamento de 2 anos e 9 meses, a
despesa extra seria em 2018 também de 30 milh.; em 2023 de 419+ 113 = 532 milh. €
A diferença entre a proposta do Governo e a dos
Sindicatos é pois de 401 milh. € , os quais acrescidos da TSU originam 635
milh. € - ou seja os 600 milh.€ que o 1º Ministro citou no debate parlamentar
acrescentado que “não havia dinheiro”.
É compreensível a posição do Governo de não querer
tomar um compromisso que posteriormente poderá não estar em condições de
cumprir - sem contrair mais dívida, ou sem desfalcar outros sectores
importantes da actividade, ou sem aumentar os impostos ou sem voltar aos
cortes.
Mas os Sindicatos dos professores exigem não só
justiça, que a justiça não paga contas, mas aumentos salariais resultantes do
descongelamento das progressões na carreira. Para “facilitar a vida ao
Executivo” os Sindicatos até estão dispostos a fasear a consideração dos anos em que os professores
não progrediram, até ao total de 9 anos e 4 meses
Então porque
não propor ao Governo a aceitação da sua contra-proposta , mas sem considerar o
assunto encerrado e com a promessa vinculativa de o assunto voltar a ser
discutido após a formação de Governo
resultante das eleições legislativas de 2019 ?
Lisboa, 12 de Junho de 2018
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