domingo, 28 de março de 2021
A EDP E A VENDA DA CONCESSÃO DE 6 BARRAGENS
A EDP ( Energia de Portugal) empresa dedicada à produção e venda de electricidade para fins domésticos e empresariais, dirigida por accionistas estrangeiros, mas com cerca 44% do capital disperso em bolsa sem direito a voto, é a mais importante do género no nosso País. É uma companhia relevantíssima para a vida das pessoas e para a economia nacional , mas cujas decisões não dependem de nacionais ( o accionista principal é a República Popular da Chima através da sua empresa Three Gorges) e cujos lucros vão maioritariamente para o estrangeiro.
Por outro lado, o preço para o consumidor doméstico português era no final de 2019 o 8º mais caro da União Europeia e o mais caro de todos considerando a paridade de poder de compra.
Por estas duas razões, a minha simpatia pela EDP, e provavelmente a da muitos dos meus compatriotas, é bastante reduzida.
Esta introdução vem a propósito da discussão pública envolvendo a venda da concessão de exploração de 6 barragens situadas em Trás-os-Montes pela EDP aos franceses da Engie por 2200 M de € e de ser devido ou não o pagamento de imposto de selo.
Pelo que ouvi na audição parlamentar sobre o assunto aos Ministros do Ambiente e das Finanças e ao Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, fiquei convencido que a alteração ao Art. 60 do Código de Benefícios Fiscais aprovado em 2020 com a abstenção do BE não irá isentar a EDP de pagar 110 M de € de imposto de selo e que compete à Autoridade Tributária fazer as contas e apresentar a factura à EDP. Num estado de direito democrático com leis e atribuições bem definidas, não sei como o Governo poderia proceder de outra forma, qualquer que fosse a opinião sobre a transação.
Outra questão levantada na mesma audição pela Srª Deputada M. Mortágua foi a do parecer favorável dado pela Agência Portuguesa do Ambiente à venda da concessão das barragens, contra as reticências duma Directora de Serviços da APA expressas numa carta interna de Julho passado – a qual chegou ao seu conhecimento. O Ministro do Ambiente explicou, e posteriormente o Director Geral da APA confirmou numa entrevista a um canal de TV, que a carta interna tinha sido um bom documento de trabalho e que tinha permitido aclarar dúvidas e contribuir para as considerações finais expressas na aprovação.
Por tudo isto, não me parece que tenha havido favorecimento ou desfavorecimento do Governo, nem transigência com eventuais ilegalidades, neste negócio. Os alarmismos expressos publicamente sobre o tema são, a meu ver, infundados.
Pena é que o Governo não tenha tido a possibilidade de exercer o direito de preferência e ficar com um negócio de lucro garantido. Ou que não haja em Portugal um grupo de capitalistas interessado na compra. Neste caso, pelo menos os dividendos dos lucros futuros ficariam dentro de portas.
Numa óptica de consumidores, todos nós gostaríamos de saber como irão evoluir os preços do kwh a pagar, em resultado da mudança de propriedade duma parte substancial da produção de energia eléctrica. Mas não ouvi esta pergunta na audição acima referida. E também, poderá a Engie deixar de vender electricidade a Portugal, privando-nos dum bem necessário, e exportá-la para França, por exemplo, para ter melhor preço ?
Haver diversos produtores importantes de energia eléctrica é certamente importante em termos de funcionamento de economia de mercado – desde que não se estabeleçam carteis e haja possibilidade de evitar abusos no estabelecimento do preço aos consumidores.
Lisboa, 28 de Março de 2021
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
VENCIMENTOS NO SECTOR PÚBLICO E NO SECTOR PRIVADO
O Estado é o maior empregador de Portugal. A maneira como são tratados os seus trabalhadores, incluindo os cargos políticos da mais alta responsabilidade, tem sido objecto de análises, considerações, invejas, maledicências, queixas, e sobretudo de comparações com o sector privado.
A ideia que tenho, é que os funcionários dos escalões mais baixos da escala de vencimentos ganham acima dos equivalentes no privado, mas que nos cargos mais altos ou de mais responsabilidade como professores, médicos, técnicos muito qualificados, de chefe de serviços em diante se ganha menos que numa grande empresa nacional
Vejamos dois exemplos no que respeita a vencimentos
NA TAP
Tem sido motivo de discussão nos meios políticos, na comunicação social, em conversas informais entre amigos e conhecidos os vencimentos dos Administradores da TAP, numa altura em que o plano de restruturação da empresa prevê, alem de despedimentos, um corte nas remunerações dos trabalhadores que pode ir até 25%.
Pelo que tem vindo a lume, o anterior Administrador Executivo Chefe (AEC) recebia por mês 59.000€ ; o novo AEC interino vai ganhar 35.000 € por mês ; uma nova Administrador Executiva, que foi promovida e acumula com a posição anterior, vai auferir 25.000€ ; o Presidente do Conselho de Administração desistiu dum aumento de ordenado e continua a receber 12.000€ por mês.
Leque salarial, entre o trabalhador que menos recebe e o trabalhador que mais recebe, o AEC : 1 para 35
Enquanto isto, o Ministro das Infraestruturas, que tutela e manda na empresa, ganha , incluindo despesas de representação, cerca de 6.900€ por mês.
Como é possível compreender e aceitar uma grelha salarial em que o Ministro, que manda, ganha pouco mais de metade do Presidente do Conselho de Administração, e este por sua vez ganha cerca de 1/3 do AEC, seu inferior na hierarquia ?
Deve haver explicações para esta inversão de valores, mas não estou a ver quais.
NA BANCA
Outra situação que dá que pensar
O Ministro das Finanças ganha cerca de 6.900 € por mês
o Governador do Banco de Portugal cerca 17.000 por mês,
os Presidentes dos bancos, incluindo a CGD e excluindo as remunerações variáveis, entre 27.500 e 40.000 por mês
Leque salarial, tomando como base a CGD, entre o trabalhador que menos recebe e o trabalhador que mais recebe, o presidente executivo : 1 para 45
NO ESTADO
Leque salarial entre o trabalhador que menos recebe e o Presidente da República : 1 para 15.
Discorramos um pouco sobre os números apresentados
Um tipo de opiniões que se ouve muita vez para justificar os baixos vencimentos dos titulares de cargos políticos ( baixos por comparação com o que ganham administradores e directores no privado) é a de que não somos um país rico e os contribuintes não podem pagar mais aos políticos. No privado, acrescentam, é diferente, “eles” podem pagar como quiserem, o negócio é “deles”. De facto o negócio é deles, mas quem paga o negócio são os contribuintes! São os portugueses que compram os seus produtos ou os seus serviços que pagam! Se, por exemplo, um administrador dum banco privado ganhasse como um ministro talvez muitas das comissões bancárias pudessem ser dispensadas, se os administradores das empresas de telecomunicações ganhassem como um ministro talvez os custos cobrados aos clientes pelos “pacotes” fosse mais baixo, se os administradores das grandes empresas de distribuição ganhassem como um ministro talvez os bens postos à venda ficassem mais baratos, se os administradores das grandes empresas ganhassem como um ministro, talvez pudessem pagar melhor a todos os colaboradores
Muitos dos que não concordam com esta ideia dirão : que estou a tentar nivelar por baixo, que estou a limitar a iniciativa privada, mesmo que estou a contrariar o deus mercado ( de facto não sou idólatra). A todos responderei : o que estou a sugerir é apenas para “proteger os contribuintes” ( os que contribuem para a empresa Estado e para as empresas privadas) - que é um mote inatacável, já que da esquerda à direita todos o usam – e sobretudo para diminuir as desigualdades excessivas, que continuam a ser uma das lepras dos nossos tempos.
O leque salarial no Estado acima referido é uma boa prática.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
PANDEMIA E ORÇAMENTO DE ESTADO PARA 2021
Os Portugueses têm obrigação de mostrar a sua solidariedade humana para os que sofrem, física ou economicamente, com a pandemia do Covid 19 auxiliando-os através do OE suplementar para 2020 e através do OE para 2021, este em discussão na Assembleia da República. E não tenho dúvidas que esse auxílio deve contemplar também aqueles que quando ganharam dinheiro não descontaram para a Segurança Social, aqueles que não tendo tido, deliberadamente, o cuidado de seguir as regras da DGS foram infectados, aqueles que nos suas vendas se “esqueceram” de registar a respectiva factura, ficando isentos do pagamento do imposto correspondente – com a esperança de que no futuro a gratidão para com os seus compatriotas os conduza a comportamentos diferentes. É preciso dar para receber e é preciso receber para dar.
O OE2021 tem pois que atender às despesas resultantes do normal funcionamento do Estado e às despesas extraordinárias resultantes da pandemia. Para isso o País vai ter de contrair mais dívida pois o dinheiro resultante da cobrança de impostos e das verbas disponibilizadas a fundo perdido pela União Europeia não vão ser suficientes. Sabendo-se que a dívida pública portuguesa é já extraordinariamente elevada, o seu aumento deve ser o estrictamente necessário. Porque, mais tarde ou mais cedo, a dívida vai ter de ser paga. E enquanto não for saldada há juros a pagar e mais dívida a contrair quando o prazo de pagamento duma parte dela chegar ao fim e não houver dinheiro disponível para a liquidar. Uma dívida soberana como a nossa, à volta de 130% do PIB quantos anos, melhor dito, quantas décadas, vai levar a resolver? De momento, devido à acção do Banco Central Europeu e ao excesso de dinheiro existente no mercado financeiro os juros são baixos e alguns dizem não haver perigo em pedir dinheiro emprestado, mas, e daqui a 5 anos, daqui a 10 anos, como como será? Esses, os que assim pensam, julgarão que, na realidade, Pluto o deus do dinheiro da mitologia grega existe e vai derramar a sua cornucópia sobre Portugal? Ou julgarão que as instituições prestamistas, num insólito acto de boa vontade ou de misericórdia, nos vão perdoar as dívidas? Repito o que já disse noutras ocasiões: os países, como as pessoas, para serem respeitáveis e respeitados têm obrigação de pagar as suas dívidas.
Na discussão dos beneficiários a auxiliar e dos quantitativos envolvidos nesse auxílio existe, na discussão do OE2021, a habitual dicotomia entre esquerda e direita. Os partidos à esquerda do PS querem mais ou muito mais para as pessoas e os da direita, mais ou muito mais para as empresas. O Governo fez a sua proposta, com os elementos de que dispõe e com as cautelas que as considerações acima escritas sobre a dívida soberana impõem, não se tendo esquecido que sem empresas não há empregos (excepto nos serviços públicos) e que, com muita gente no desemprego ou com fraco poder de compra, a procura interna seria muito reduzida e as empresas veriam o seu volume de negócios francamente diminuído ou iriam mesmo para a falência. A atitude da direita de querer mais para as empresas do que para as pessoas está em linha com as suas ideologias, mas querer aumentar ainda mais a dívida pública é aparentemente contraditório com a sua atitude habitual.
A não ser que queiram deliberadamente um orçamento que possa ser considerado despesista para um dia mais tarde, quando chegar a hora de pagar a conta, acusarem o Governo PS de ser despesista! Será esta a estratégia política em curso?
Ou terão perdido a esperança de ser governo nos anos vindouros?
A verba para o SNS em 2021 é também motivo de grande discussão. Na minha opinião a verba deve ser constituída por duas parcelas: a verba para o funcionamento do SNS em situação normal e a verba para ocorrer ao aumento de despesa devido à pandemia. A primeira deve contemplar a melhoria constante dos serviços , sem tentar, porem, resolver todas as dificuldades num ano só e atender à inelutabilidade de se voltar ao equilíbrio orçamental quando a crise for considerada ultrapassada. A segunda parcela da verba deverá ser transitória.
AS propostas do BE sobre leis de Trabalho não têm cabimento na discussão dum OE pois não têm influencia neste. Não devem ser usadas como moeda de troca para outras aprovações. Mas devem ser discutidas na Concertação Social e depois no Parlamento. Como escrevi num artigo em 20 de Março de 2018, não é aceitável que “ as indemnizações (por despedimento) no tempo do Sr. Marcelo Caetano fossem mais generosas (para os trabalhadores) do que são nos contratos de trabalho celebrados a partir de 1/10/2013 ( Governo do Sr. Passos Coelho + troika)”.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
O MURO DAS LAMENTAÇÕES
O MURO DAS LAMENTAÇÕES
A 12 de Outubro de 2020 o Orçamento de Estado para 2021 foi entregue no Parlamento e A 21 de Outubro o Ministro das Finanças deu uma conferência de imprensa para realçar alguns detalhes daquele e responder a perguntas dos jornalistas.
Logo de seguida, as televisões transmitiram comentários dos partidos políticos, sindicatos, associações patronais, etc.
E aí cheguei à conclusão que não tinha apresentado um orçamento mas um Muro das Lamentações !
Quase nenhum sector da sociedade portuguesa deixou de ser contemplado com algum benefício, absolutamente necessário em face das crises económica e social causadas pela doença pandémica Covid 19. Mas apesar do enorme sacrifício que isso representa em aumento de dívida pública – que um dia os portugueses terão da pagar – ninguém, excepto provavelmente os apoiantes do Governo, se mostrou satisfeito. Todos queriam mais para o grupo que representam ou dizem representar, como se fosse possível ao Governo distribuir dinheiro a rodos sem pensar no futuro.
Pessoalmente acredito que o Orçamento contempla as necessidades imediatas da população, sobretudo dos mais prejudicados pela recessão económica e procura criar condições para a continuação da luta contra a doença e para que as empresas afectadas pela crise possam sobreviver.
Reprovar o Orçamento na Assembleia da República teria como consequência a despesa do Estado passar a ser gerida pelo regime de duodécimos, com base no Orçamento anterior, sem as melhorias para todos que a proposta apresentada traz.
Se os partidos políticos acham que a solução dos duodécimos é melhor que a proposta, então realmente devem votar contra. Mas isso será falta de pragmatismo ou ideologia política levada ao absurdo?
Lisboa, 14 de Outubro de 2020
Post Scriptum : O que escrevi não significa que que concorde com as desigualdades exageradas que existem na sociedade portuguesa : há muito a fazer neste campo. Mas apesar de tudo o Orçamento em causa dá um pequeno contributo para a redução daquelas. Não seria possível num único ano resolver todos os problemas, mas deveria ser estabelecido um plano pluri-anual resolver o problema social e civilizacional que isso representa.
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
A DIRECÇÃO GERAL DE SAÚDE, OS CRÍTICOS E A FESTA DO AVANTE
Uma coisa é certa : os anos que tenho para viver são muito menos do que aqueles que já vivi.
Mas existem coisas que gostaria de fazer e que a pandemia veio adiar, ainda não sei para quando. Por isso ouço e leio com muito interesse as notícias que vão surgindo sobre a evolução da doença, os novos conhecimentos que vão surgindo, as vacinas e os tratamentos em investigação - sempre na esperança de ficar a saber que os perigos da pandemia vão ser afastados. Uma das minhas fontes informativas, desde o principio, assistindo em directo ou em diferido, são as conferências de imprensa do Ministério da Saúde / Direcção Geral de Saúde (DGS ), onde é feito o ponto da situação diária e são dadas respostas às questões postas pelos jornalistas. Tive, e tenho, sempre a noção de que as informações e as respostas eram, são, dadas com toda a honestidade e vontade de esclarecer as pessoas e nunca notei qualquer desejo de evitar um assunto ou tentativa de ocultação de factos. Tive sempre a sensação de estar perante pessoas de confiança. Uma ou outra vez as orientações expressas foram alteradas, mas considero que isso é sinal de inteligência – na medida em que inteligência á a capacidade de se enfrentar situações novas, um atributo dos humanos.
A maneira como deve ser enfrentada a pandemia e os cuidados a ter diferem, quer nas decisões das autoridades dum país ( variando entre posições extremas como a Suécia e a China ) quer nas opiniões de especialistas, de pessoas que emitem opiniões na comunicação social ou simplesmente de populares. A mim, opinião de popular, parece-me que as directivas emanadas pela DGS são sensatas, baseadas nos conhecimentos científicos disponíveis, não variando conforme diga respeito à situação ou ao acontecimento A, B ou C e procurando manter o equilíbrio possível entre a precaução e a necessidade de continuarmos as actividades sociais, profissionais e lúdicas.
Em resultado da diferença de opiniões acima falada, a DGS tem sido atacada, por vezes de forma civilizada, no campo das ideias, por vezes de forma sectariamente violenta e injusta ( *), por vezes por fazer de mais, por vezes por fazer de menos. E o Governo, na sua obrigação de promover o bem comum, toma as suas decisões em conformidade com as informações técnicas que lhe são fornecidas, transformando-as em decisões políticas com força de lei. Há quem não goste e barafuste, nada de anormal : é o sistema democrático a funcionar. Mas a legislação é para ser cumprida, não pode ficar ao livre arbítrio de cada um fazer o que apetece, quando não concorda.
O caso da festa do Avante é um caso típico de mistura de preocupações de saúde publica com luta política. Os adversários políticos do PCP estiveram visceralmente contra a realização festa, alegadamente por razões sanitárias, mas na realidade porque são contra o PCP e para DAevitar uma acção de propaganda política em grande escala, chegando a insinuar que o Governo nã proibiu a festa para tentar conquistar o PCP relativamente à aprovação do orçamento para 2021 ( omo se o PCO se deixasse convencer por esse processo ). Fizeram de conta que ignoravam que, fora do estado de emergência, não é possível a um Governo proibir manifestações politicas. Mas, muitas pessoas genuinamente preocupadas com o controlo da pandemia, também pensaram que o Governo deveria proibir a festa por motivos de saúde pública, para evitar contágios, mesmo que a organização prometesse cumprir as determinações da DGS. De facto, mesmo cumprindo à risca todas as regras, não haveria risco zero, como não há risco zero nos transportes públicos, nos empregos, nos espectáculos autorizados, nas reuniões familiares, na feira do livro, etc. e como não vai haver no regresso às aulas.
Devemos ser prudentes e seguir as orientações da DGS, mas não podemos deixar de viver a nossa vida de relação.
Tanto quanto me apercebi, a DGS para a festa do Avante não atenuou nem inventou regras : sistematizou para a diversas actividades que iam decorrer o que já estava estabelecido para restaurantes, bares, espectáculos ao ar livre, comícios, etc. E a determinação do número máximo de pessoas obedeceu ao mesmo critério que a lotação das praias.
Não me parece que tenha havido incoerências.
Mas dito isto, também têm razão aqueles que perguntam:
Desde o início da pandemia tanta gente abdicou de tanta coisa, na Páscoa emigrantes não vieram ver as famílias, os outros partidos políticos têm feita a reentrada sem festas populares, continuamos a não fazer tudo o que gostaríamos, porque razão o PCP não se mostrou solidário reduzindo a festa tradicional à parte política?
(+ ) Um caso típico é o que o Sr. Director do semanário Expresso disse no artigo que publicou na página 2 do número de 5/9/2020
Lisboa, 6 de Setembro de 2020
quinta-feira, 9 de julho de 2020
A NACIONALIZAÇÃO DA EFACEC
No seu campo de actividade, a engenharia electrotécnica, a EFACEC é uma empresa de prestígio mundial, com conhecimentos técnicos ( know how ) próprios, companhias na Europa, nas Américas e na Ásia, que vence concursos internacionais e exporta produtos de alto valor acrescentado.
É portanto uma empresa cujo desaparecimento depauperaria o já de si não muito rico, tecido industrial português e privaria o país dum exportador de qualidade.
Portanto, fez muito bem o Governo em deitar mão à empresa, nacionalizando-a, garantindo a sua sobrevivência financeira e preparando-a para ser vendida quando aparecer um comprador conveniente.
Um “comprador conveniente”. A escolha do adquirente não me parece uma tarefa simples, nem pode ser baseada unicamente no “quem dá mais”. Em meu entender, deverá ser uma firma com interesses indiscutíveis na industria, de sólida base financeira, de preferência de capitais nacionais e que ofereça garantias de não vá “parti-la aos bocados” e vender estes de forma a obter um lucro fácil. Aceitar como comprador uma companhia financeira, um fundo investimentos por exemplo, é um risco grande pois estas entidades não têm verdadeiramente gosto pela indústria, pela agricultura, pelos serviços, etc,: só têm gosto pelo dinheiro em si. Quando vêm possibilidade de fazer um bom negócio, depois de terem extraírem tudo o que puderam, vendem, sem lhes interessar o futuro da empresa.
O Governo deve acautelar este risco e não pode ter pressa em vender pois, como disse acima, a EFACEC é uma empresa valiosa cuja continuidade interessa garantir.
Lisboa, 9 de Julho de 2020
quarta-feira, 17 de junho de 2020
A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL DE 2009 E O SEU REFLEXO EM PORTUGAL :
PARTE II – CONSEQUÊNCIAS
Como deixei escrito no final da PARTE I, os resultados para a população portuguesa do programa da troika, executado pelo Governo PSD+CDS, serão resumidos nesta PARTE II do artigo, a partir do excelente estudo “ DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS E POBREZA EM PORTUGAL – As consequências sociais do programa de ajustamento “ , da autoria de Carlos Farinha Rodrigue et al. , do Instituto Superior de Economia e Gestão, edição de 2016 da PORDATA, daqui em diante referido simplesmente como ESTUDO.
1. A redução dos rendimentos
Observando o Quadro 1, pág.26 do ESTUDO que apresenta as perdas de rendimento dos vários decis hda população entre 2009 e 2014 , vê-se que os rendimentos familiares equivalente das famílias mais pobres sofreram muito mais que os das famílias mais ricas no período 2009-2014 : enquanto os dois primeiros decis tiveram uma redução, respectivamente de 25% e 16% , para o último a redução foi de 13%, sendo a redução média considerando todos os decis de 12 %
( Nota : O 1º decil diz respeito aos 10% da população com rendimentos mais baixos, o 2ª decil aos 10 % da população com rendimentos a seguir aos mais baixos e assim sucessivamente até ao 10º decil onde estão os 10% da população com os rendimentos mais altos )
No que respeita aos outros países sujeitos ao ajustamento em comparação com a média da União Europeia no Gráfico 5 ( pág. 31 da mesma fonte ), vê-se que em resultado da crise os países sujeitos ao torniquete da troika, particularmente a Grécia, viram os rendimentos familiares diminuírem, enquanto que na União Europeia a 28, ou a 17 subiram.
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
i) Devido às políticas implementadas durante o tempo da toika, em média toda a população sofreu cortes no seu rendimento, mas os mais pobres francamente mais que os mais ricos.
ii) Na EU, os países que tiveram necessidade de auxílio perderam rendimentos, enquanto que os restantes países ganharam rendimentos
2. Aumento das desigualdades
A evolução da desigualdade é medida pela variação ao longo dos anos de indicadores como o Índice de Gini, os Índices de Atkinson e a relações entre os rendimentos médios dos decis mais elevados e os dos mais baixos
No ESTUDO, os números apresentados mostram que, se as desigualdades económicas diminuíram de 2006 a 2009, no intervalo de 2009 a 2014 aumentaram ( Quadro 4 da pág. 38 )
A relação entre o rendimentos médios do decil mais rico ( S90 ) e o decil mais pobre ( S10 ) passou de 9,2 em 2009 e para 10,6 em 2014 . E se for considerada a relação entre os rendimentos médios dos 5% mais ricos e os dos 5% mais pobres ( S95/S5 ) o aumento foi de 14,3 em 2009 pata 18,4 em 2014.
A comparação entre o que se passou em Portugal e na União Europeia pode ver-se no Gráfico 12, 13, 14 e 15 das pág. 42 e 43 do ESTUDO através da variação do coeficiente de Gini
( Relembrando que o índice de Gini varia entre 0 (igualdade total ) e 1 ( máxima desigualdade ) e portanto quanto maior for o índice, mais desigual é a sociedade)
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
i) As políticas seguidas tornaram a população de Portugal mais desigual em termos de rendimentos
ii) No contexto europeu, Portugal manteve-se como um dos países mais desiguais
3. Agravamento da pobreza monetária
A taxa de pobreza monetária é definida como a percentagem da população que usufrui menos que 60% do rendimento mediano por adulto equivalente, valor que constitui a linha de pobreza oficial Esta taxa, porem não dá uma medida realista da medição de pobreza ao longo dum período porque, devido a variações do valor da mediana causada por descidas dos rendimentos o valor da mediana pode descer e fazer sair pessoas da zona de pobreza sem que efectivamente tenham saído. Por isso foi criada a noção de “linha de pobreza ancorada num determinado ano” calculada a partir do ano de referência usando o índice de preços no consumidor para o actualizar
O Gráfico 21 da pág.52 do ESTUDO mostra como aumentou a taxa de pobreza em Portugal de 2009 a 2014 : a pobreza oficial aumentou de 17,9% para 19,5% e a pobreza ancorada ou referida a 2009 aumentou de 17,9% para 24,2 %.
O gráfico 23 da pág. 55 do ESTUDO mostra como taxa de pobreza nos países sujeitos ao ajustamento aumentou mais que na média da UE28 e da Zona Euro.
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
A crise de 2009 aumentou a taxa de pobreza em Portugal e na maior parte dos países da UE
4) Quantos eram os pobres em Portugal
Como vem escrito na pág. 85 do estudo, utilizando o conceito de linha de pobreza oficial, os pobres aumentaram em mais de 116.000 pessoas de 2009 para 2014, passando de 1,903 milhões em 2009 para 2,019 milhões em 2014, dos quais 22,2 % eram menores de 17 anos e 17,8 % idosos
5) Aumento da privação material
Relembremos as noções de privação material ( PM )e privação material severa (PMS) .
Diz-se que uma família ou um indivíduo está em PM se, por motivos financeiros, não com seguir satisfazer 3 destas nove condições :
- ter as contas em dia ( não ter atrasos no pagamento de rendas, despesas etc. ):
- gozar uma semana de férias fora de casa;
- fazer uma refeição de carne, peixe ou equivalente vegetariano pelo menos dia sim, dia não:
- conseguir fazer face a uma despesa imprevista sem pedir um empréstimo;
- ter telefone
- ter televisão a cores ;
- ter uma máquina de lavar roupa;
- ter automóvel ;
- manter a casa aquecida no inverno
A PMS verifica-se quando não é possível satisfazer 4 destas condições.
Em Portugal, entre 2009 e 2017 ( Quadro 11, pág 60 do ESTUDO )
A PM aumentou de 21,5 % para 25,7 % e
A PMS aumentou de 9,1 % para 10,6 %
Um outro indicador que permite a avaliar o que se passou nos capítulos da pobreza e da privação material é o da pobreza consistente. . Um pobre consistente é uma pessoa que está simultaneamente em situação de pobreza e de privação material. Este indicador passou de 8,2% da população para 9,7 % em 2014.
Comparando com o que se passou na UE a 27 ( UE sem croácia ), observa-se no Gráfico 29 da pág. 63 do ESTUDO que entre 2009 e 2014 a PMS diminuiu em 10 países, permaneceu constante em 2 e aumentou em 15. Em Portugal subiu 1,5% enquanto na média da EU a 27 cresceu 0,7 %
CONCLUSÕES DESTE PONTO :
A crise de 2009 aumentou a taxa de privação material em Portugal e na maior parte dos países da EU
6) Perda de rendimentos salariais
A análise feita no Capítulo 7 do ESTUDO mostra que o ganho médio equivalente mensal dos trabalhadores diminuiu de cerca de 6% entre 2009 e 2014 em termos brutos e cerca de 12,7% em termos líquidos.
Considerando os decis daquele ganho médio bruto, verifica-se que os mais penalizados são o 1º , que passou de 515 € para 449 € ( - 14,7% ) e o 10ª que reduziu de 4116 € para 3670 € (- 10,8 % ).
E também se verificou que os trabalhadores por conta de outrem com baixos salários ( definem-se baixos salários como salários abaixo de 2/3 da mediana ) passaram de 14,0 % em 2009 para 15,4% e que a respectiva taxa de pobreza aumentou de 6,1% para 8,0%
Ou seja, os trabalhadores de mais fracos rendimentos perderam mais que os outros e a correspondente taxa de pobreza aumentou
7) Como se distribuíram as perdas pelos diferentes grupos de trabalhadores
O ESTUDO mostra que :
- Os trabalhadores mais jovens ( < ou= 24 anos ) perderam mais que os outros grupos etários
- O género feminino perdeu mais que o masculino
- Os contratados a prazo perderam mais que os permanentes
- Os trabalhadores a tempo parcial perderam mais que os a tempo integral
- Os trabalhadores com cursos superiores, em percentagem, perderam quase o dobro em comparaçãocom os dos outros graus
de ensino
- Por sectores de actividade, os trabalhadores da indústria melhoraram enquanto os de todas as outras actividades
pioraram.
8) Efeitos das alterações efectuadas nas transferências sociais
Entre 2009 e 2014, verificaram-se alterações nas transferências sociais relativas a abono de família (AdF),
rendimento social de inserção (RSI) e complemento solidário pata idosos (CSI)
8.1 ) AdF
Em 2010, o AdF foi eliminado para as famílias de maiores rendimentos ( 4º e 5º escalões ), bem como a majoração de 25% para o 1º escalão ( famílias de rendimento anual até 2.934,54 € e para o 2º escalão de rendimento anual de 2.934,54 € a 5.869,08 € ). Isto contribuiu certamente para aumentar a pobreza naqueles escalões.
8.2) RSI
Como se pode ler na página 134 do ESTUDO, 2 reformas na atribuição do RSI, em 2010 e 2012 reduziram não só o montante a receber por cada beneficiário (foram eliminados alguns benefícios adicionais), como reduziram o número de pessoas elegíveis .No entanto o valor máximo que um indivíduo que viva só foi mantido foi mantido até 2013, quando foi reduzido de 189,52 €/mês para 178,15 €/mês. Isto significou que o número de beneficiários passou de 486.977 em 2009 para 320.811
em 2014 e número de famílias abrangidas foi reduzido de 192.249 em 2009 para 139.557 ( em 2014).
Em período de crise, foi um grande contributo para o aumento da pobreza
8.3) CSI
O CSI foi criado em 2005 e é igual à diferença entre os recursos do idoso e um valor de referência .
Em 2009 aquele era de 5.022 €/ano e foi reduzido em 2013 para 4.909 €/ano .
O número de beneficiários subiu de 232.808 em 2009 para 237.845 em 2013 e caiu para 212.565 em 2014 ( com a respectiva diminuição de despesa ).
CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS DAS POLÍTICAS IMPLEMENTADAS NO TEMPO DA TROIKA
QUE SÃO EVIDENCIADAS PELO ESTUDO
1) Em média toda a população sofreu cortes no seu rendimento, mas foi bastante pior nos mais pobres que nos mais ricos.
2) As políticas seguidas tornaram a população de Portugal mais desigual em termos de rendimentos.
3) A taxa de pobreza em Portugal aumentou, ou seja os pobres aumentaram em mais de 116.000 pessoas de 2009 para 2014, passando de 1,903 milhões em 2009 para 2,019 milhões em 2014, dos quais 22,2 % eram menores de 17 anos e 17,8 % idosos
4) Aumentou a taxa de privação material em Portugal
5) Os trabalhadores de mais fracos rendimentos, em percentagem, perderam mais que os outros.
6) A população mais necessitada foi prejudicada pela redução das contribuições sociais relativas a abono de família, rendimento social de inserção e complemento solidário para idosos .
APRECIAÇÃO FINAL
As medidas de redução do défice das contas públicas exigidas pela União Europeia e pelo FMI ( cujos organismos intervenientes constituíram a chamada troika ) para emprestar dinheiro ao Estado Português em consequência da crise financeira internacional de 2009 ( ver 1ª Parte do texto ) estão traduzidas no que foi chamado Memorandum de Entendimento. Aquelas medidas foram postas em prática entre 2011 e 2015 pelo governo de coligação PSD + CDS ( Passos Coelho + Paulo Portas ).
A insensibilidade social ( para não dizer crueldade ) das disposições tiveram as consequências acima descritas, mas acabaram por ser ineficazes em relação aos objectivos pretendidos pela troika.
No Memorandum estavam fixadas metas para os défices das contas públicas em 2011, 2012 e 2013 que não foram atingidos.
Vejamos quais eram os objectivos e os resultados alcançados
ANO DÉFICE PRETENDIDO DÉFICE REAL ( valores tirados da Pordata )
Em MILHÕES de € Em % do PIB Em MILHÕES de € Em % do PIB
2011 10.068 - 5,9 13.495 -7,7
2012 7.645 - 4,5 10.400 -6,2
2013 5.224 - 3,0 8.702 -5,1
EM FACE DISTO, COMO É POSSÍVEL AOS INTERVENIENTES E AOS QUE OS APOARAM ESTAREM SATISFEITOS E POR VEZES ORGULHOSOS DOS RESULTADOS OBTIDOS PELO GOVERNO PSD+CDS ?
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